A escrita do Afeto

08/12/2018

Livros vivos.

Somos como livros sendo escritos, 

                    revisados, 

                                editados, 

                                         ressignificados,

 constantemente, por tudo que nos marca e por quem nos lê.

Tão logo um bebê nasce já começa a receber os primeiros registros de uma escrita que se faz no contato, nas experiências físicas, no toque, no afago, no abraço, no aconchego do colo materno, paterno, ou de quem  assuma estes papéis de cuidado.

É a partir da experiência do acolhimento ao nascer que se registra essa escrita inicial de afeto, a primeira relação entre linguagem e corpo.

Como livros inconclusos, somos e seremos sempre fruto de experiências que escrevem e marcam nosso inconsciente. Páginas que vão ganhando dia a dia a impressão das nossas vivências, das vivências que nos afetam.

A afeição surge nesta escrita com dois sentidos. O afeto como ternura, como carinho e dedicação mas também atrelado em sua etimologia à raiz latina Afficere: "afetar, influir sobre". Nossas atitudes, sejam elas positivas ou negativas, afetam e inscrevem no outro parte do que ele vai se tornar. Da mesma forma que carregamos em nossas páginas aquilo que nos foi inscrito pelo outro nas mais distintas relações.

Dizem que o fato de os bebês nascerem com feições delicadas, pequenas e agradáveis aos olhos seria uma das muitas "artimanhas da natureza" para despertar no adulto esta inclinação natural aos cuidados, porque sua vulnerabilidade inicial os coloca em total dependência física e afetiva.

Quando um bebê nasce e não recebe de imediato este registro de amor e cuidado, é como se as primeiras páginas da sua vida estivessem sendo negligenciadas, deixadas em branco, ou pior, marcadas com uma outra escrita, a da indiferença, do desamparo e da violência.

Um bebê que nasce prematuro ou com algum comprometimento de saúde é submetido, ainda nas primeiras horas de vida, a uma série de exames invasivos, ao toque de mãos embrulhadas em luvas de látex, ao som de vozes que não lhe conhecem e com as quais não terá vínculo algum, longe do calor materno, dentro de uma incubadora que em nada se assemelha ao útero seguro e aconchegante que fora sua morada nos meses anteriores. O nascimento por si só é uma transição complexa e desafiadora para um bebê saudável. Para um bebê frágil, esse primeiro momento é um trauma que se segue por semanas ou meses dentro de uma UTI neonatal. É ali, naqueles primeiros momentos de vida que lhe são escritas as linhas iniciais de sua história, uma escrita confusa e quase sempre dolorosa.

"Elsa Coriat propõe a metáfora de que o corpo do bebê seria uma folha em branco e que a mãe, ao cuidar dele, investindo com seu desejo, seus afetos, escreve nessa folha traçando nesse corpo uma geografia erógena: lugares que foram tocados, investidos"¹

Ressenti-me muito disso quando Rebecca nasceu. Tento me convencer de que aquele afastamento inicial foi necessário, que os exames na UTI, a incubadora e todo aquele monitoramento foram indispensáveis. Mas ainda me pergunto se não haveria uma forma menos traumática de fazer as intervenções ao nascimento. Ela veio ao mundo pela manhã e eu só pude vê-la à noite, já confinada naquele caixote acrílico, cheia de fiozinhos e sondas. Pegá-la no colo só foi permitido lá para o 4º dia, quando uma enfermeira me perguntou o óbvio: "quer segurá-la?".

"Mas eu posso?" 

Estava tão perdida que tinha me esquecido que não havia colo mais seguro que o meu, que era eu a mãe e que não tem como colo de mãe fazer mal a um bebê. Tinham falado que não podíamos segurá-la, que perderia o acesso venoso, que fora da incubadora não respiraria bem... Eu sequer havia protestado. Queria seguir ritualisticamente cada instrução porque tinha perdido o controle de tudo, tinha perdido aquela segurança tão instintiva de mãe. Eu era uma estranha ali, aguardando instruções de como tocar minha própria filha.

Páginas que gostaríamos de ter escrito com as mais deliciosas palavras, com as mais belas poesias de amor, com os adjetivos mais tenros de afeto, foram sendo escritas com linhas tortuosas, rasuras de ausências e insegurança nesta história dela e nossa.

Quando saiu da incubadora ela passou a ficar no colo dia e noite, até o último segundo do horário de permanência dos pais na UTI neonatal. Estávamos ali, o Rodrigo e eu, escrevendo intensamente as páginas subsequentes daquele prefácio tão ingrato, na tentativa de que os registros novos, carregados de carinho, afeto e vozes de ternura a fizessem esquecer as primeiras.

"Como o bebê não registra qualquer estímulo, apenas experiências que são importantes para ele, os cuidados não podem ser anônimos, ele precisa de um investimento particularizado: de olhar, de toque, de palavras, para que justamente as marcas desse objeto real externo possam se relacionar com o real do corpo dele"¹

A escrita é essa marca que permanece. Seja como marca feliz ou como registro doloroso, fato é que fará parte da sua história. Essa escrita que se faz nas relações ou na ausência das relações, no prazer do aconchego ou na dor física e emocional, é uma escrita que não se permite apagar ou escrever por cima. O objeto em que se inscreve é transformado para sempre. As marcas permanecem em nós.

Estamos saindo de uma nova internação, mais uma de tantas que já fazem parte desta história que tentamos escrever com leveza, com palavras serenas e de esperança mas que volta e meia é interrompida por capítulos de uma escrita densa, cansativa e pesada. Essa internação veio interromper um daqueles momentos ótimos. A Rebecca estava tão bem dias antes, que mal dava para acreditar que estaríamos de volta a este hospital que se tornou nosso segundo lar ano passado. Estávamos escrevendo páginas lindas de dias de sol, de brisa de praia, de participação e frequência como nunca na escola, de interação com os amiguinhos, de dormir esparramada com o irmão no sofá, de ouvir as músicas preferidas, de sorrir quando menos se espera para abrilhantar o dia, vivendo como criança tem que viver, cercada de amor e de tudo que é alegria, luz, novidade e afeto.

De repente, é como se alguém virasse a página e começasse a desenhar borrões grotescos. Essa escrita repetitiva de intercorrências hospitalares nos dá uma vantagem. Já conhecemos o roteiro e por isso passamos por ele cada vez mais rápido e saímos cada vez menos fragilizados.

Antes mesmo de sair daqui já começo a planejar as próximas páginas, escolho as palavras mais carregadas em alegria, em afeto, em afeição que nos afetem tão profundo de um jeito que esses capítulos borrados fiquem sempre no passado, e percam sua relevância na doçura dos capítulos que se seguirem.

Nem espero sair daqui para começar a rascunhar felicidade. Mesmo enquanto as páginas estão sendo escritas com mão pesada, deixando marcas de ansiedade e dor, há sempre espaço para registros de amor. Aqui dentro mesmo, entre um exame e outro, entre uma medicação e outra, conseguimos escrever alegrias nas entrelinhas do medo... Teve a  "dancinha da Becca" (uma modalidade só dela de dança deitada, com chutes pro alto e mãozinhas cruzadas no peito), teve sorriso desses que ela dá com um trechinho de música específico que de repente parece fazer cócegas aos ouvidos, teve visita de gente que a gente ama, teve conversa e risada sobre a vida, teve nós duas dormindo agarradas na cama que era para ser só dela... teve reflexão que veio da janela do quarto, dos livros que eu trouxe e da vida que corre aqui dentro e lá fora, teve vontade de fazer coisas novas e teve lugar para planos que se projetam para um amanhã melhor.

Fica decidido então, 

que para cada página borrada, amarga e triste 

serão escritas outras dez alegres

                                                  coloridas, 

                                                             afetuosas,

                                                                    cheias de ternura 

                                                                                         e fé.



                                                                                                                               Texto: Sara Lopez

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Por trás do texto:

Essa alegoria da escrita sob o ponto de vista psicanalítico aparece em diferentes autores e merece um estudo aprofundado. A autora Leda Bernardino me encantou com sua abordagem sobre a escrita na Educação inclusiva, ressaltando a importância do contato inicial entre pais e filhos na construção da linguagem, no livro "Práticas inclusivas em escolas transformadoras".

A primeira referência simbólica que tenho da escrita como registro afetivo, no entanto, é mais antiga. A carta de Paulo aos Coríntios² já afirmava de maneira quase poética que somos cartas escritas por Cristo não em tábuas de pedras mas em corações humanos, colocando esta escrita como registro de uma relação de fé que se imprime de maneira tão nítida e profunda a ponto de poder ser lida por todos. 

Estes registros que também fazem parte do que sou, são resgatados pela memória e ganham nova leitura enquanto escrevo amalgamando ideias que eu nem lembrava, mas já estavam impressas em mim.




¹BERNARDINO, Leda Mariza Fischer. O papel fundamental da escrita na educação inclusiva. In KUPFER, PATTO, VOLTOLINI (org.). Práticas inclusivas em escolas transformadoras: acolhendo o aluno sujeito. São Paulo: Escuta: Fapesp, 2017

²BÍBLIA SAGRADA. 2ª Carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 3, versículos 2 e 3

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