A cura

25/11/2017

Uma condição genética, como a da Rebecca, não tem cura.

Primeiro porque não é doença, segundo, porque alterações no nosso DNA não são reversíveis.

Quando uma anomalia, uma desordem cromossômica, acontece durante o desenvolvimento embrionário, o código "defeituoso" se repete  e se multiplica nas células do organismo que está em formação. Na síndrome de deleção 5q14.3, com a qual a Rebecca foi diagnosticada, parte do material genético do cromossomo 5 é perdida, "deletada", como o próprio nome sugere. E essa perda significa a ausência de genes importantes para o funcionamento do corpo,  gerando consequências marcantes para o desenvolvimento dela, em muitos aspectos.

Em outras palavras, o "pedacinho" faltando no quinto cromossomo da nossa pequena não pode ser corrigido nos trilhões de células do seu corpo afetadas com esta "falha" genética, tão pouco podem ser modificadas as características físicas e neurológicas decorrentes da síndrome.

Síndrome...

Desordem...

Falta...

Anomalia...

Irreversível..

Alteração...

Incurável...

Palavras duras, vocabulário frio com o qual tivemos que nos acostumar, que incorporamos à nossa fala, ao nosso discurso... palavras que estão longe de definir o que a Rebecca de fato representa.

Mas, tem cura? Quem faz a pergunta se desaponta com o não... Pela medicina, não. A Genética ainda está engatinhando nos estudos sobre edição do DNA. 

É nesse ponto que se começa a falar de fé. Mas milagres acontecem, você não acredita em milagres?

Sim, acredito. Acredito principalmente naqueles milagres que se manifestam na alma. Aqueles que muitas vezes passam despercebidos enquanto ficamos à espera de uma cura física extraordinária, aqueles pequenos prodígios que se desdobram diariamente diante dos olhos sem que notemos, aquelas sutilezas do dia-a-dia que como terapias suaves vão tratando as feridas do coração sem fazer alarde.

É por isso que, ao invés de interceder por cura, prefiro pedir em prece que a Rebecca seja feliz e que possamos participar dessa felicidade, que possamos aprender a ser felizes com ela e por ela... Que ela seja o nosso milagre!

Quanto mais me permito aprender com a Rebecca, mais eu percebo que talvez não seja ela quem precisa de cura. Talvez quem precise de cura seja eu.

Talvez sejamos nós os mais necessitados de cura.... Nós que somos sãos, que somos perfeitos, nós, os "sem deficiência". Nós precisamos de cura.

Cura para os nossos preconceitos, cura para  nossa indiferença, cura para o nosso egoísmo.

Precisamos de cura para o nosso olhar, que muitas vezes se limita a ver o que convém...

Cura para nossas mãos, que tantas vezes se retraem e não se estendem nem se abrem para dar apoio ...

Cura para os nossos pés, que insistem em andar apressados, numa eterna corrida atrás do vento, numa maratona desenfreada por vitórias vãs... Pés que competem pelos pódios da vida e que não desaceleram, que se perdem e se esquecem de como é importante caminhar lado a lado, de mãos dadas, enxergando o outro, mesmo que isso signifique chegar por último.

Nem sempre se encontra cura para uma doença, mas acredito que muitas "curas" vêm através dela, através da enfermidade, através da deficiência, por meio dela, graças a ela... uma cura muito mais valiosa, uma cura que transcende esta existência.

E então, tem cura?

Eu espero, sinceramente, que sim! Que haja cura para todas as mazelas que fazem adoecer os nossos corações, para tudo que nos impede de amar, de abraçar o outro com as suas inadequações, com as suas limitações...

Espero que haja cura para tudo que nos impede de experimentar os pequenos milagres, estes que são, na verdade, os maiores.