en-us-Deficientes... Portadores de necessidades especiais... Excepcionais... Qual é a terminologia adequada?

05/07/2017


Esse post foi sugestão de uma mãe e amiga que já está nesta jornada há mais tempo e nos alertou sobre a terminologia correta a ser usada nos textos escritos aqui no blog. Muitas vezes não nos damos conta, mas repetimos erroneamente muitos termos que já caíram em desuso e outros que além de antiquados soam pejorativos. 

Segundo Romeu Kazumi Sassaki, consultor de inclusão social, educacional e laboral, "jamais houve ou haverá um único termo correto, válido definitivamente em todos os tempos e espaços", ou seja, não há uma regra universal de como se referir às pessoas com deficiências mas há sim termos convencionalmente aceitos e que devem ser usados preferencialmente, já que a evolução histórica dessas terminologias é fruto de debates e reflexões que evidenciam uma real preocupação da sociedade, em especial dos movimentos e organizações mundiais de pessoas com deficiência, em se tratar o assunto com seriedade e respeito.

"A construção de uma verdadeira sociedade inclusiva passa também pelo cuidado com a linguagem. Na linguagem se expressa, voluntariamente ou involuntariamente, o respeito ou a discriminação em relação às pessoas com deficiências." (Sassaki, 2003)

Por muito tempo, termos como "inválidos", "incapacitados" e "incapazes", foram amplamente utilizados e aceitos para designar pessoas cujas limitações impediam a realização de atividades que pessoas sem deficiência realizariam normalmente.

Em meados do século passado, a partir da criação das primeiras unidades da Associação de pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e com a fundação da AACD, hoje denominada Associação de Assistência à Criança Deficiente, passou-se a utilizar três categorias distintas para denominar as pessoas com deficiência:

Defeituosos: Mais comumente utilizada para designar pessoas com alguma deformidade física;

Deficientes: termo que caracterizava pessoas que, devido as suas deficiências, quaisquer que fossem, executavam atividades básicas do cotidiano (andar, falar, comer, tomar banho...) de forma diferente das demais. Essa concepção representou grande avanço diante das terminologias anteriores porque não destitui o indivíduo integralmente de suas capacidades.

Excepcionais: usado para designar especificamente os indivíduos com comprometimento intelectual, o termo "excepcionais" também foi pleiteado pelos movimentos em prol das "pessoas superdotadas", posteriormente chamadas de "pessoas com altas habilidades" que, em situação diametralmente oposta a dos deficientes intelectuais, também seriam excepcionais em suas habilidades.

Pessoas deficientes:

O ano de 1981 foi instituído pela ONU como Ano Internacional das Pessoas Deficientes e a expressão em destaque representou um importante passo na valorização da pessoa com deficiência. O substantivo "deficiente" deu lugar a "pessoa". Assim, a palavra "deficiente" passou a adjetivar a pessoa e não mais nomeá-la. Parece uma mudança simples - "pessoas deficientes" ao invés de só "deficientes"- mas a inserção da palavra "pessoas" lançou um olhar mais humanizado e contribuiu para a valorização daqueles que têm a deficiência, reforçando a concepção igualitária de direitos dos mesmos.

Portadores de deficiências e Pessoas com necessidades especiais:

Alguns anos depois, as expressões acima surgem numa tentativa de amenizar o peso da palavra "deficientes", mas justamente por isso, por amainarem o significado da palavra deficiência, essas novas terminologias também foram questionadas e substituídas por uma única expressão que hoje é mundialmente preferida, em detrimento de todas as anteriores: "pessoas com deficiências"

Pessoas com deficiências

A Declaração de Salamanca, Documento elaborado na Conferência Mundial sobre Educação Especial, preconizou o termo "Pessoas com deficiências" seguida por outros movimentos mundiais de pessoas com deficiências como a Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência adotado pela ONU em 2006.

Sassaki lista em seu artigo "Terminologia sobre deficiência na era da inclusão" os princípios que jusificam a adoção desta nova designação:

1. Não esconder ou camuflar a deficiência;

2. Não aceitar o consolo da falsa ideia de que todos têm deficiência;

3. Mostrar com dignidade a realidade da deficiência;

4. Valorizar as diferenças e necessidades decorrentes da deficiência;

5. Combater eufemismos que tentam diluir as diferenças, tais como "pessoas com capacidades especiais", "pessoas com eficiências diferentes", "pessoas com habilidades diferenciadas", "pessoas deficientes", "pessoas com disfunção funcional" etc.

6. Defender a igualdade entre pessoas com deficiência e sem deficiência em termos de direitos e dignidade, o que exige a equiparação de oportunidades para pessoas com deficiência;

7. Identificar nas diferenças todos os direitos que lhes são pertinentes e a partir daí encontrar medidas específicas para o Estado e a sociedade diminuírem ou eliminarem as "restrições de participação" (dificuldades ou incapacidades causadas pelos ambientes humano e físico contra as pessoas com deficiência).


Diante destes dados, optaremos preferencialmente pelo uso da expressão "com deficiência" nos textos da página One of a Kind. É possível, porém, que a expressão "com necessidades especiais", ainda muito utilizada em vários artigos, apareça em alguma postagem que tenha trechos traduzidos de artigos estrangeiros, a fim de garantir a autenticidade nas traduções, e ainda para evitar a repetição exaustiva do termo "com deficiência".

Referências:

SASSAKI, Romeu .Terminologia sobre deficiência na era da inclusão, 2003. Disponível em: <https://acessibilidade.ufg.br/up/211/o/TERMINOLOGIA_SOBRE_DEFICIENCIA_NA_ERA_DA.pdf?1473203540>


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