en-us-A jornada até o diagnóstico

03/03/2017

Do nascimento ao diagnóstico foram nove meses. Quase uma segunda gestação, uma gestação pós-nascimento. Nove meses de dúvidas, de perguntas sem respostas, de uma busca incansável e de uma espera aflita, até dar à luz e receber nos braços a mesma bebê, mas sob um novo olhar. Este segundo nascimento foi mais nosso do que dela. Ela sempre foi essa bebê linda e única que diariamente nos inspira e nos faz crescer. Nós é que não a conhecíamos como a conhecemos hoje. 


"Nós decidimos levá-la para a UTI. A respiração dela ainda não está normal...Fizemos a ultrassonografia abdominal e ela tem dois ureteres em cada rim, também tem um baço acessório, além das feições que sugerem uma possível síndrome genética..."


Foi o que ouvi, no quarto da maternidade, poucas horas após o parto enquanto aguardava que minha bebê voltasse do berçário para onde tinha sido levada, a princípio apenas por um desconforto respiratório.

"Não parece ser síndrome de Down, mas vamos precisar investigar".

Completou a pediatra, como se isso amenizasse o choque da notícia. Ela tinha a voz embargada e uma atitude carinhosa.

"Desculpe-me por dar essa notícia com você aqui sozinha, quer que eu chame uma enfermeira para te fazer companhia?"

Momento devastador. Rodrigo, meu marido, tinha acabado de sair do hospital. Fora buscar minha mãe e nosso filho mais velho para a visita. Desolada e confusa fiz sinal com a cabeça que não, que não era preciso chamar ninguém. Um beijo na testa, um olhar de consternação e a pediatra foi embora, deixando no quarto uma puérpera completamente desorientada.

Assim que a Rebecca nasceu, de parto normal, sem complicações, depois de um pré natal tranquilo e muito bem assistido, veio direto para o meu colo. Não chorou de imediato, o que me chamou a atenção. Lembro-me de ter dito para o pai, todo emocionado ao meu lado, "Como é linda... não vai chorar?" A equipe médica dali pra frente assumiu os cuidados e me disse com todo carinho que ela seria levada para o berçário porque estava com dificuldades para respirar, mas que não havia motivos para preocupação.

Durante a gravidez as ultrassonografias mostravam hidronefrose (dilatação renal). Coincidentemente, ou não, nosso mais velho, David (7), também teve os mesmos sintomas detectados ainda no útero e houve uma grande preocupação, na época, com a possibilidade de ser VUP (Válvula de Uretra Posterior), um problema no trato urinário relativamente comum em meninos e que demandaria uma cirurgia logo após o nascimento. Ele nasceu muito bem , berrando e soltando um jato de xixi em cima da obstetra o que descartou de cara a suspeita. A dilatação ele tem até hoje mas nunca precisou de intervenção cirúrgica e nunca teve uma infecção urinária sequer.

Ficamos intrigados com o fato de nosso segundo bebê também apresentar essa dilatação e começamos a suspeitar de hereditariedade embora na família não haja casos de patologias ou malformações renais. Ao mesmo tempo ficamos tranquilos, assim como os médicos, pensando que tudo não passaria de um pequeno susto, como fora na primeira gestação.

Além da hidronefrose da Rebecca, lá pelo sétimo mês de gravidez uma das ultrassonografias mostrou polidramnia, um aumento do volume de líquido amniótico. Minha barriga parecia que não tinha mais para onde esticar e pesava mais do que o normal. A obstetra alertou para as chances de a Rebecca nascer antes do tempo já que a bolsa poderia romper prematuramente e disse que a polidramnia estaria relacionada à dilatação renal da bebê. Na minha ansiedade, busquei informações na internet e vi que há uma série de causas possíveis para esse excesso de líquido amniótico, dentre eles malformações congênitas e síndromes. Os médicos, no entanto, em nenhum momento levantaram essa suspeita. 

Todas as medidas da Rebecca estavam dentro do esperado, translucência nucal, ecocardiografia, movimentação fetal, tudo ótimo... Tudo muito bem monitorado até a 37ª semana, quando entrei em trabalho de parto sem rompimento da bolsa, contrariando as expectativas da obstetra que por alguma razão achou por bem forçar o procedimento. Estourou a bolsa, fez episiotomia, estímulo com ocitocina, tudo que achei que não seria necessário num parto natural, mas que na hora não tive condições psicológicas para questionar. Nada disso, no entanto, teria relação com o diagnóstico da Rebecca, embora durante algum tempo, diante da angústia da falta de respostas sobre o seu quadro, tivéssemos considerado a possibilidade de que seu atraso no desenvolvimento fosse resultado de um erro médico.

Na UTI neonatal, onde passou seus primeiros 12 dias de vida, nossa princesinha foi submetida a uma série de exames... ultrassonografias, Raio x, hemograma, exames de urina, transfontanela, uretrocistografia (esse último fora da maternidade, numa clínica especializada para onde foi levada de ambulância ainda dentro da incubadora), além de consultas com diferentes especialistas que a pedido da maternidade compareciam à UTI para avaliá-la... Cardiologista, Geneticista, Oftalmologista, Nefrologista... Era um alívio estar cercada de tantos cuidados e ao mesmo tempo um desespero cada vez que um desses médicos levantava uma suspeita diferente.

"Ela provavelmente tem uma obstrução intestinal" disseram os pediatras nos primeiros dias enquanto me avisavam que suspenderiam a dieta (o leite que eu rigorosamente tirava no lactário nos horários certos para que ela pudesse mamar na mamadeira, já que não tinha força para sugar no peito) e que colocariam um acesso para soro na mãozinha e uma sonda no nariz para o refluxo. Lembro-me de ter saído aos prantos da UTI nesse dia, com a sensação terrível de ter entrado num pesadelo que só piorava.

"É triste dizer, mas ela parece ter bexiga neurogênica e espinha bífida" disse o nefrologista dias depois, o que só me levou aos prantos mais tarde, quando tive tempo e coragem de pesquisar na internet o que aqueles palavrões queriam dizer... uma malformação na espinha que comprometeria o funcionamento da bexiga ao longo da vida dela.

Ainda na maternidade, os exames mostraram que não, esses não eram os diagnóstico certos.

O geneticista que fora chamado ao hospital para avaliar a suspeita de síndrome genética, por sua vez, foi extremamente tranquilizador, talvez por perceber nosso estado de desespero depois de tantos sustos. Explicou que "síndrome" era um conjunto de sintomas e que no exame clínico não tinha visto na Rebecca traços físicos relevantes que lembrassem alguma síndrome conhecida, que ela na verdade parecia bastante com a gente e que talvez a pediatra tenha tido essa impressão porque ela nasceu "amassadinha" pelo excesso de líquido no útero.

"Os reflexos dela são bons e só o fato de a transfontanela ter sido normal já é um alívio".

Nesse ponto já estávamos tão aflitos que tínhamos somado aos tais traços que a pediatra listou, outros que nós mesmos identificamos ao olhar para ela sem ninguém mencionar. Perguntamos dentre outras coisas sobre a cabeça, que parecia um pouco torta ao que ele, muito espontâneo, respondeu  apontando para o Rodrigo: "Olha a cabeça dele, é torta igual a do pai" . Perguntei se ainda assim não seria viável fazer algum exame genético para descartar qualquer suspeita e ele disse que sim, que iria fazer o pedido mas que esses exames demoravam a ficar prontos.

Por fim, saímos com nossa pequena do hospital sentindo um misto de alegria e de receio, de alívio e de preocupação, uma sensação de vitória por tudo que ela havia superado desde o nascimento, e ao mesmo tempo uma enorme insegurança de deixar aquele reduto de cuidado e monitoramento intensivos, para longe daquela bolha esterilizada que por quase duas semanas se tornou nossa segunda casa. Voltamos de lá, carregando um extenso prontuário de alta, uma penca de perguntas e algumas recomendações: Após 2 meses voltar ao cardiologista, ao oftalmologista e ao geneticista, além das consultas de rotina com a pediatra é claro e, de imediato, agendar o acompanhamento com um urologista para saber quais seriam os próximos passos no tratamento do problema renal.

Em busca por respostas:

O que era apenas uma suspeita ao nascimento foi ficando cada vez mais evidente conforme o tempo foi passando e nossa Rebequinha foi crescendo sem atingir os marcos básicos do desenvolvimento infantil. A pediatra da maternidade, como mencionei acima, havia identificado nela alguns traços físicos que sugeririam, juntamente com o problema renal do qual já estávamos cientes desde a gravidez, uma possível síndrome genética. Dentre os traços sindrômicos ela havia mencionado a implantação das orelhas abaixo da linha dos olhos, a ponte nasal baixa, ou seja, o "osso" do nariz bastante achatado e as pálpebras apertadas, características muito comuns em várias síndromes. No entanto, traços físicos por si só não são determinantes para nenhum diagnóstico.

Nas primeiras semanas em casa era evidente que ela não enxergava muito bem, não olhava com interesse para nossos rostos nem para objetos que colocávamos a sua frente e isso me preocupava. Todos os artigos que eu lia sobre a visão dos bebês, porém, afirmavam que eles realmente não enxergam bem nos primeiros meses e que a visão vai se desenvolvendo com o tempo. Mas nossa bebê também não sustentava a cabeça, tinha resistência a sugar no peito, não sorria e parecia ter dificuldade em coordenar o movimento das mãos até a boca como os bebês costumam ser capazes de fazer desde o período intrauterino. Tudo isso, no entanto, é bastante relativo nos primeiros meses, varia muito de bebê para bebê, era ainda muito cedo para caracterizar um atraso no desenvolvimento.

A recordação dos primeiros meses de vida do David, nosso filho mais velho, era mais um motivo de inquietação. Não éramos pais de primeira viagem, e tínhamos registros em fotos e vídeos, além de diários do bebê com anotações de todas as etapas da vida do nosso primeiro filho, hoje com sete anos. Essas recordações me deixavam sempre em dúvida sobre como me posicionar com relação a Rebecca. O David foi daquelas crianças que você só leva ao pediatra pra medir e pesar. Alcançou todos os marcos do desenvolvimento no tempo certo e alguns até precocemente como a marcha (aos 8 meses começou a andar com independência), interagia sorrindo desde os primeiros meses, tinha o olhar atento e tinha uma força que impressionava. "Mas a Rebecca é outra criança", as pessoas a minha volta insistiam em dizer, "Você não deve compará-la com o David"... "Ela nasceu um pouco antes da hora, ficou na UTI..." "Ela é menina, você sabe, menina é mais quietinha mesmo."

Na primeira consulta pediátrica depois de receber alta da UTI neonatal, nós apresentamos à médica todos os exames feitos na maternidade com o prontuário de alta e explicamos tudo que os médicos haviam dito durante a internação. Lembro-me de ter sentido um nó na garganta quando tive que mencionar a suspeita de síndrome genética e enfatizei a fala do geneticista, de que provavelmente essa suposição tinha sido precipitada.

Essa primeira pediatra, por sua vez, não deu muita importância ao relato e avaliou a Rebecca como de rotina na maioria dos consultórios, anotando as medidas, fazendo perguntas básicas, observando os laudos... Cheguei a perguntar sobre o desenvolvimento dela, que aspectos eu deveria observar nos meses seguintes. A resposta soou como um alento, mais uma vez. Eu não precisava me preocupar com o desenvolvimento da minha bebê pois o Apgar dela nao tinha sido baixo (8,5 e 9) e a transfontanela ( ultrassonografia transfontanelar, exame que detecta eventuais lesões cerebrais ou hidrocefalia) não tinha mostrado alterações, ela disse.

Mais adiante saberíamos que o índice de Apgar, que nada mais é do que a avaliação dos sinais vitais do bebê logo após o nascimento, ainda que apresente uma nota alta, não é necessariamente um indicativo de que o bebê está imune a futuras complicações ou problemas de desenvolvimento. Da mesma forma a transfontanela não oferece detalhes suficientes para descartar todos os possíveis problemas cerebrais.

Mudamos de pediatra no terceiro mês de vida da Rebecca. O desenvolvimento parecia estagnado. Ela começara a emitir sons típicos dos bebês nessa fase e apresentou uma leve melhora na coordenação dos movimentos das mãos mas os demais marcos ainda não tinham sido atingidos. Esta segunda pediatra também notou alguns traços físicos que justificariam a suspeita de síndrome levantada na maternidade e perguntou pelo exame do cariótipo que a Rebecca havia feito na UTI, a pedido do geneticista, a fim de descartar ou não a hipótese de alteração cromossômica.

Apesar desta preocupação inicial com os aspectos sindrômicos, a pediatra não demonstrou muita atenção aos indicadores de atraso no desenvolvimento e, quando mencionei a falta de controle cervical, colocou nossa bebê de bruços e observou-a por alguns segundos tentar, com muito esforço, erguer a cabecinha. Disse que estava dentro do esperado e que alguns bebês são mais agitados e começam a querer rolar nessa fase mas que ela devia ser mais calma e que estava "fazendo o dever de casa direitinho".

O exame do cariótipo é realizado através de análise do material celular em amostra sanguínea (é possível ser feito até mesmo durante a gestação por amniocentese, se houver alguma suspeita) e serve para identificar a quantidade e a estrutura de cromossomos em uma célula, identificando alterações cromossômicas como as da síndrome de Down e Turner.

Quando finalmente recebi o resultado por email, tanto o Cariótipo como o Teste do Pezinho e de Erros Inatos do Metabolismo mostravam resultados sem alterações. Abri esse email com o coração palpitante e ao ver o resultado tive uma sensação de alívio misturada a um desconforto, uma frustração pela ausência de respostas para as minhas perguntas. Queria que estivesse tudo bem mas, ao mesmo tempo, precisava de explicações para tudo que parecia estar fora dos padrões no desenvolvimento da Rebecca e achava que de alguma maneira aqueles exames seriam definitivos para fechar um diagnóstico.

Os exames cardiológicos, e oftalmológicos depois da alta da UTI também não mostravam alterações importantes. As pediatras consultadas até então não haviam demonstrado interesse nem preocupação em nos orientar sobre as possibilidades de investigação diagnóstica tampouco nos direcionaram a profissionais capacitados para fazê-lo. Não havia evidências suficientes que comprovassem que ela era portadora de um síndrome genética. O que os médicos sabiam, o que de fato podiam afirmar até aquele momento era que a Rebecca apresentava uma variante anatômica preocupante no sistema urinário. Além de hidronefrose ("água nos rins") bilateral e duplicação dos ureteres também nos dois rins, havia o que eles chamam de "ureterocele", uma espécie de capinha que impede o fluxo da urina localizada no final do ureter, possível causa da dilatação renal.

Já nesses primeiros meses de vida da nossa bebê, uma série de exames de imagem... ultrassonografias, uretrocistografia e cintilografias... mostrou que havia necessidade de intervenção cirúrgica para correção do refluxo renal que já tinha lesionado parte dos rins. Começamos a nos preparar então para a cirurgia. Mas e o atraso neuromotor? Que ligação haveria entre esse problema renal e o atraso no desenvolvimento?

Pesquisei na internet síndromes que tivessem ligação com malformações renais e com os traços físicos que ela apresentava e nada fazia sentido. É muito comum encontrar síndromes associadas a cardiopatias mas não a patologias urológicas. Já os traços físicos abriam um enorme leque de opções. Durante um bom tempo quase me convenci de que ela tinha Síndrome de Down porque os traços se assemelham um pouco e porque é uma das síndromes mais comentadas na internet. Tudo que eu jogava no Google me respondia "Síndrome de Down".

E se o problema renal fosse um sintoma isolado e o atraso estivesse ligado a outra doença de base ou a algum problema que não fora detectado na gravidez? Todas estas perguntas titilavam na minha cabeça dia e noite enquanto me inquietava em buscas na internet tentando entender o comportamento da nossa bebê.

Aos cinco meses, Rebecca ainda não tinha controle cervical, chorava muito ao ser colocada de bruços, não apresentava sorriso social (aquele intencional que as crianças já no segundo mês de vida apresentam como uma resposta ao reconhecimento do rostos dos pais) não interagia conosco nem mantinha contato visual. Pensei em autismo. Hoje em dia sabe-se que é possível identificar o transtorno do espectro autista ainda nos primeiros meses de vida e há inclusive estudos sobre reversibilidade do quadro quando o diagnóstico acontece precocemente. Mais uma vez a parte motora e o problema renal não se explicavam. Era uma angústia diária tentar encaixar todas essas peças, nada fazia sentido. Era uma angústia ouvir tantos questionamentos sobre minha gravidez nos consultórios, mesmo sabendo que é de praxe o interrogatório médico a fim de descartar todas as possibilidades.

"Você teve alguma infecção durante a gravidez?",

"Teve manchas no corpo?"

"Tomou algum remédio?",

"Foi planejada?",

"Vocês (o pai e eu) têm algum grau de parentesco?"

Enfim, mudamos de pediatra pela terceira vez, desta vez uma pediatra da qual tivemos excelentes recomendações. [Não pretendo citar nomes aqui para não comprometer nem expor nenhum dos profissionais que fazem parte desta narrativa mas ficarei feliz em disponibilizar os contatos de forma privada a quem tiver interesse.] Mais uma vez explicamos a longa história. A história da gestação, a história da UTI, a história desde a gravidez até ali. A fala já saía no automático e, sobre a mesa da médica, apresentamos um a um as dezenas de exames feitos desde o nascimento.

Esta terceira pediatra foi assertiva em dizer que sim, a Rebecca possuía vários aspectos sindrômicos e devia ter iniciado acompanhamento terapêutico para estimulação visomotora desde o nascimento. Explicou que havia outros exames genéticos mais detalhados, capazes de identificar alterações cromossômicas dificilmente detectáveis ao exame do Cariótipo. Indicou uma geneticista conceituada, neurologistas experientes, indicou o hospital para realização de um eletroencefalograma de confiança, encaminhou a Rebecca para terapias de reabilitação e ainda nos deu o contato de advogados que poderiam nos ajudar com os trâmites de reembolso dos procedimentos não contemplados pelo plano de saúde, bem como poderiam nos orientar com relação às possibilidades de afastamento do trabalho sem prejuízo salarial para acompanhamento da nossa bebê.

Pela primeira vez desde o nascimento da Rebecca tínhamos um Norte. Foi um alívio finalmente receber orientações coerentes, por mais doloroso que tenha sido ouvir com tanta clareza da boca de uma médica que nossa bebê era PORTADORA DE NECESSIDADES ESPECIAIS. Saímos desta consulta tentando assimilar novamente uma confusão de sentimentos e de informações difíceis de compreender. O fato é que o atraso da Rebecca tinha como causa uma doença de base cuja origem precisava ser investigada mais a fundo.

Rodrigo chorou ao sair do consultório. Depois de 6 meses após o nascimento da Rebecca ele assimilou pela primeira vez a ideia de ter uma filha "especial". Em casa beijou-a carinhosamente, dizendo o quanto ela é linda, como quem declara pra si mesmo "eu te aceito". Eu não chorei naquele dia. Já havia chorado demais nos meses anteriores pensando nessa possibilidade, pensando em todas as evidências e no quanto estávamos sem direção nesta busca por respostas. Saí de lá esperançosa.

Nas semanas que se seguiram conseguimos fazer o exame de EEG que mostrou algumas alterações indicativas de uma predisposição a convulsões e uma ressonância cerebral que detectou atraso de mielinização, indicando "imaturidade cerebral". Também finalizamos os exames pré-operatórios e nossa bebê teve parte do rim esquerdo removida. A cirurgia foi realizada com sucesso e a recuperação superou nossas expectativas. Ainda assim, Rebecca toma diariamente uma dose profilática de cefalexina para prevenir infecções urinárias e ainda necessita de acompanhamento de urologista e nefrologista.

A geneticista nos recomendou fazer um exame genético chamado Array CGH que demoraria uns dois meses para ficar pronto e ainda assim poderia não ser definitivo. Caso não fosse detectada nenhuma alteração genética por meio deste exame, um outro, chamado Sequenciamento do Exoma seria necessário.

Ainda no consultório, depois de avaliar a Rebecca, a geneticista sugeriu uma síndrome rara chamada Schinzel Giedion. Disse que as características físicas, o atraso neuromotor e o problema renal se enquadravam nesta síndrome, embora não fosse possível afirmar nada antes do resultado dos exames. Chegando em casa lançamos o nome da síndrome na internet e encontramos um site criado pelos pais de uma criança que havia falecido aos 2 anos de idade em decorrência das complicações da síndrome - Cláudio e Simone, pais do Bernardo. Foi mais um momento devastador nessa jornada. O prognóstico era pesado. Baixa expectativa de vida, convulsões de difícil controle, atraso severo e uma condição neurológica degenerativa. Entramos em contato com esta família que prontamente ofereceu ajuda e nos orientou. Indicaram médicos que haviam cuidado do seu filho, explicaram tudo que sabiam sobre a doença e disponibilizaram o contato do doutor Schinzel, médico austríaco que descobriu e deu nome à síndrome em 1978 e que, há alguns anos, tinha se comunicado com eles por email.

No dia seguinte à consulta com a geneticista já estávamos em contato com famílias do mundo todo cujos filhos são portadores da SGS (Schinzel Giedion Syndrome) através de um grupo fechado do facebook ao qual fomos adicionados. Também enviamos um email ao doutor Schinzel junto com fotos da Rebecca recém-nascida e outras recentes para que ele avaliasse os traços físicos além de um relatório com todas as informações que já havíamos reunido sobre o quadro dela.

Para nossa surpresa, o doutor Schinzel, respondeu carinhosa e prontamente ao nosso email e, depois de analisar as fotos e ler o relatório que enviáramos, disse que era pouco provável que Rebecca fosse portadora desta síndrome, que ela não se enquadrava nos sintomas e dismorfismos da mesma.

Desde que Rebecca nasceu, a sensação era de que estávamos numa montanha russa cheia de altos e baixos, curvas e loopings enlouquecedores, com breves momentos para respirar e voltar à calma antes da próxima queda arrebatadora. A resposta deste email foi um dos breves momentos de alívio no trajeto, mas sabíamos que o circuito ainda estava longe de terminar.

O resultado do exame genético ficou pronto, meses depois da cirurgia nos rins, confirmando que Rebecca não tinha a síndrome de Schinzel Giedion e sim, uma deleção cromossômica, alteração genética rara em que há perda de material genético em um dos cromossomos.

No laudo aparece uma sequência de números e letras que a princípio nos deixou muito confusos: 5q14.3q21.1. Despois de pesquisar em sites de genética e conversar com três geneticistas sobre o resultado entendemos que a deleção (perda de material genético) se deu no cromossomo 5, no braço longo (representado pela letra q) da banda 14.3 até a 21.1. Cada cromossomo contém uma enorme variedade de genes importantes para o desenvolvimento e funcionamento do corpo e, quando uma parte desses cromossomos, por menor que seja, é "perdida", há uma série de consequências para o desenvolvimento do indivíduo afetado.

Há outro post explicando com mais detalhes as características desta desordem cromossômica. A literatura médica a respeito é bastante restrita e o número de casos registrados desta síndrome é muito pequeno. As famílias de crianças com essa mesma deleção, com as quais mantemos contato por meio de grupos em redes sociais, demonstram dificuldade em obter informações precisas sobre o quadro de seus filhos. Todas têm muitas dúvidas e preocupações para as quais nem sempre os médicos têm respostas.

O fato é que estamos todos aprendendo uns com os outros, diariamente, tanto pais como médicos e amigos e esse aprendizado se torna cada vez mais valioso à medida que mais pessoas resolvem falar sobre sua experiência, quando compartilham suas descobertas, suas sugestões e suas perguntas.

Enquanto não tínhamos um diagnóstico era muito difícil, muito doloroso falar sobre a condição da Rebecca. Reconhecer seu atraso e não saber explicar o porquê deste atraso era extremamente cansativo. Responder a perguntas curiosas e desviar das suposições de quem arriscava inconvenientemente dizer que o atraso dela se devia a isso ou àquilo era uma aflição diária.

Enquanto tentávamos encontrar pistas sobre a causa tivemos a oportunidade de ler em blogs e sites criados por pais de crianças especiais muitos relatos comoventes, sinceros, cheios de pesar e ao mesmo tempo de esperança que nos motivaram a falar abertamente sobre o assunto, a encarar com serenidade as perguntas inconvenientes, a fazer nós mesmos as perguntas que queríamos, sem medo de parecer tolos, sem medo de mais nada. Foi através da experiência destes pais que vimos que havia fé em meio a tantas dúvidas e que havia alegria diante do mais tênue sinal de avanço no desenvolvimento destes pequenos. Nós nos vimos nestes relatos e, de repente, não estávamos mais sozinhos.

A iniciativa de criar o blog One of a Kind e de compartilhar nosso próprio relato surgiu a partir desta experiência de busca, veio da necessidade de dar maior visibilidade às doenças raras, de propiciar um espaço de troca e de auxiliar outros pais que talvez estejam iniciando agora esta busca incansável por respostas.

Se você quiser perguntar, compartilhar informações, entrar em contato e participar de alguma maneira da construção deste blog, entre em contato diretamente pelo email: saralopezamc@hotmail.com