en-us-Eu não quero que minha filha seja boazinha

09/13/2017

Sobre as contradições maternais

Dizem que nós, mulheres, somos seres complicados.  Se é verdade que somos complexas, o fato é que, com a maternidade, aquilo que tínhamos de complexidade é elevado a um nível extra de complicação.

"Ser mãe é padecer no paraíso"...

A gente repete esse contrassenso o tempo todo porque é mesmo uma loucura lidar com todos os sentimentos contraditórios que experimentamos com a maternidade, desde a gestação até a fase adulta dos filhos.


É a contradição de amar o barrigão da gravidez e desejar que cresça logo pra sentir o bebê mexer e, ao mesmo tempo, odiar o efeito sanfona da gestação e saber que por um bom tempo depois que o bebê nascer essa barriga linda que todos adoram alisar vai parecer uma bexiga de festa que murchou.


É se sentir realizada ao amamentar, sentir-se a exclusiva provedora do alimento mais rico que o bebê pode ter e, ao mesmo tempo, desejar que ele desmame logo porque o bico está rachado, porque o peito já está no umbigo, porque você não aguenta mais ser a única que pode suprir essa necessidade e quer dividir com alguém "o privilégio".


É a contradição de desejar que o filho cresça e que se torne independente, é vibrar com cada conquista e espalhar pra Deus e o mundo cada coisinha que ele aprende a fazer e, ao mesmo tempo, sentir aquele aperto no peito ao se dar conta de que, a cada conquista dessas, ele dependerá um pouco menos de você, até um dia soltar-se de vez das suas mãos e andar pelos próprios pés, nos caminhos que escolher sozinho. É desejar, ao mesmo tempo, que ele sempre seja um pouco dependente dos seus cuidados.


A lista é longa... eu tenho certeza de que você pode acrescentar mais uma dúzia de sentimentos contraditórios que experimentou ou experimenta sendo mãe. Posso apostar que alguns você sequer confessa de tão esquisitos que podem parecer, porque sabe bem que todo mundo espera que seus relatos sejam sempre de uma "maternidade conto de fadas".

Se a maternidade por si só é este turbilhão de emoções difíceis de equilibrar e assimilar, imagine o quão confuso é ser mãe de um criança com limitações, sejam elas físicas ou intelectuais... Ser mãe de uma criança "especial" traz uma nova gama de sensações e sentimentos, tão antagônicos que nem Freud explica.

É a contradição de desejar a inclusão desse filho numa escola regular, no mundo e em tudo e, ao mesmo tempo, saber que a escola, o mundo e tudo muitas vezes não têm condições de recebê-lo, de compreendê-lo e de lidar com as suas particularidades.


É a contradição de querer falar sobre essa experiência, a experiência de uma maternidade tão fora dos padrões e, ao mesmo tempo, se sentir cansada e confusa ao tentar explicar tudo o que se passa e que se vivencia nessa jornada que você mesma ainda está tentando entender e assimilar.


É a contradição de se admirar com as singularidades do seu filho e aprender com as diferenças dele e, ao mesmo tempo, desejar que ele não seja tão diferente e que a vida seja menos "especial" e mais "normal".


Há algum tempo assisti, se não me engano era cena de um filme, uma mãe se queixando da reação do filho com síndrome de down diante da ausência dos amiguinhos na festa de aniversário dele. Ninguém apareceu e o menino continuava sorrindo. A mãe, sentida, reclamava com ela mesma:

"não apareceu ninguém e ele continua sorrindo, era pra ele ficar p*** !".


Outra vez, num relato lido na internet, uma mãe contava cheia de orgulho que sua filha, com neuropatia grave, tinha chorado ao perceber que a musiquinha do brinquedo eletrônico parava de tocar, demonstrando frustração diante do silêncio. A mãe relatava com entusiasmo a capacidade que a filha desenvolvera de perceber que música tinha acabado e de demonstrar pela primeira vez sua insatisfação.


Parece uma insanidade a fala de uma mãe que se entristece pela alegria de um filho. Assim como parece confuso o relato de uma mãe que se orgulha da frustração de uma filha. Para a primeira, aquela alegria era inapropriada, não correspondia a uma reação normal naquela situação. Ela preferia ver o filho chorar, gritar de raiva dos amiguinhos, preferia que ele ficasse magoado e voltasse pra escola no dia seguinte sem olhar na cara daqueles colegas ingratos. A segunda mãe, por sua vez, alegrava-se com a tristeza da filha porque descontentamento é o que se espera diante do desejo contrariado. A criança queria a musiquinha. Se a música é interrompida é esperado que ela chore, que tenha um ataque de pirraça, de preferência.


Como entendo essas mãezinhas e suas supostas insanidades... E para fazer coro com as suas contradições chego ao título deste post. Estranhamente, assim como elas, eu não quero que minha filha seja "boazinha".


Ouvimos sempre essa frase das enfermeiras e médicas que atendem nossa pequena nas muitas idas e vindas hospitalares desde que ela nasceu. Enfermeiras e médicas adoram as crianças 'boazinhas", que não choram muito, nem esperneiam quando estão prestes a ser apertadas, cutucadas e espetadas durante os exames. A Rebecca nunca teve um choro estridente e seu baixo tônus muscular não lhe permite reagir à intensidade da dor que certamente sente durante todos os procedimentos que já fazem parte da sua rotina. Ela não puxa o braço como outra criança faria quando a seguram para colher sangue ou quando a apertam para puncionar uma veia para o acesso. Ela somente chora um choro contido e transpira muito, de nervoso. As enfermeiras me olham por cima das máscaras e soltam a afirmativa já tão previsível: "Ela é muito boazinha, né?


Eu balanço a cabeço que sim, sofrendo por dentro pela dor que ela sente sem conseguir expressar e torcendo pra que ela de repente comece a chutar a enfermeira, torcendo pra ela tentar arrancar o acesso e fazer um escândalo daqueles que fazem a tia de jaleco branco suar dentro do capote. A verdade é que pra reagir, pra se defender com pontapés e puxões é preciso ter uma força física que ela não tem e pra se antecipar e tentar se esquivar é preciso ter um entendimento do que se passa ao redor que ela ainda não desenvolveu.


E nas minhas contradições particulares, me vejo tal como as mães das narrativas acima. Nesses últimos dias, durante uma longa internação hospitalar da Rebecca, depois de vários exames de sangue, colhidos dia sim, dia não, os tais exames de controle que eles repetem enquanto a febre não cessa e enquanto o quadro infeccioso (no caso dela, infecção urinária) não melhora, entrou a dupla de branco no quarto para tirar outra amostra. Ela, assim que a médica segurou seu bracinho e passou a gaze gelada de álcool, começou a chorar copiosamente.


Por mais aflita que eu tenha ficado com o choro, que fez a frequência respiratória alarmar no monitor, senti lá no fundo uma estranha satisfação pela reação, pela percepção que ela teve. Dessa vez ninguém disse o quanto ela é boazinha. A médica e a enfermeira suavam e diziam "Calma, Rebequinha... nossa! Ela já até sabe o que vai acontecer...". Sim! Ela estava chorando forte como nunca e isso antes mesmo de sentir a dor, ou seja, ela havia criado uma memória negativa daquela situação que se repetira tantas vezes e agora já era capaz de antecipar-se à dor e demonstrar insatisfação, de protestar do jeitinho dela diante do que estava prestes a acontecer. E lá estava eu, experimentando mais um dos paradoxos maternais. Minha filha estava chorando de ansiedade, estava sofrendo por antecipação e eu, de alguma forma estava entendendo isso como uma conquista.


O fato é que estamos sempre buscando formas de nos enquadrar e enquadrar tudo que nos cerca dentro de certos padrões de normalidade. Nós nos comportamos como é esperado e inconscientemente esperamos que o mundo a nossa volta se comporte dentro do mesmo padrão. E tudo que foge a esses padrões causa um desconforto muito grande.


É tão natural do ser humano sentir tristeza, é natural guardar mágoas, é natural ficar na defensiva e sentir raiva, e sentir ansiedade, e frustração, e revidar, e romper relações... e, em busca do que é normal, não nos contentamos com a alegria, com a pureza e com a simplicidade e acabamos por desejar o pacote inteiro de sentimentos que nos definem enquanto seres humanos, inclusive esses sentimentos ruins, que na infância são superficiais mas que ao longo da vida vão se tornando cada vez mais elaborados, complexos e difíceis de manejar.


De repente eu olho pra ela, pra minha bebê, e parece que eu vejo um anjo... Um olhar tão sereno... A alma leve de pluma... Sempre envolta numa áurea sobre-humana. Fico me perguntando, eu que tanto quero trazê-la para o meu mundo, como deve ser o seu mundo. Como deve ser ter tamanha pureza na alma? Talvez ela olhe pra mim com a mesma expectativa. A expectativa de que eu me aproxime do mundo dela, de que eu seja menos humana, menos "normal", menos capaz de ter raiva, de ter medo, de guardar tristezas, de me antecipar e de sofrer por antecipação, de que eu seja capaz de ter a paz que ela tem e de estar tão próximo de Deus como ela sempre está.

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