Extraordinário (Wonder)

24/05/2017

"Os olhos dele ficam cerca de dois centímetros abaixo do que deveriam, quase no meio das bochechas. São caídos, formando um ângulo acentuado, quase como se alguém tivesse aberto duas fendas diagonais em seu rosto, e o esquerdo é claramente mais baixo que o direito. E são esbugalhados, porque as cavidades oculares são pequenas demais para comportá-los (...) Ele não tem sobrancelhas nem cílios. O nariz é desproporcionalmente grande para o rosto, e meio largo. A cabeça dele é afundada nas laterais, no lugar onde deveriam estar as orelhas, como se alguém a tivesse apertado bem no meio com um alicate gigante."

O extaordinário Algust Pullman, "Auggie", como é chamado pelos mais próximos, nasceu com uma anomalia crânio-facial grave e devido a sua aparência e às dezenas de procedimentos cirúrgicos a que foi submetido nos primeiros anos de vida, nunca pôde frequentar a escola. Estudava em casa, com sua mãe, e passou muitos anos usando um capacete de astronauta para cobrir seu rosto disfórmico. Aos 10 anos de idade se vê diante de um enorme desafio: iniciar a vida escolar. Auggie começa a cursar o quinto ano do Ensino Fundamental, corajosamente expondo-se aos olhares e julgamentos de todos os alunos e professores da escola Beecher Prep.

O romance de R. J. Palaccio, apesar da temática delicada, é uma história leve, sensível e divertida. Traz em meio a relatos pueris do cotidiano escolar e familiar do protagonista reflexões importantes sobre  as diferenças, sobre bullying, sobre superação e sobre autoaceitação.


Um verdadeiro apelo à gentileza.

O diretor da escola figura como importante mediador nessa história, antecipando-se e intervindo em vários momentos para que August seja tratado com respeito e para que se sinta aceito na comunidade escolar. Sr Buzanfa, apesar do nome engraçado, leva muito a sério a missão de garantir a inclusão de August na escola regular. É deste personagem uma das falas mais comoventes do livro:

"Se cada pessoa (...) tomar por regra que, onde quer que esteja, sempre que puder, será um pouco mais gentil que o necessário, o mundo realmente será um lugar melhor. E, se fizerem isso, se forem apenas um pouco mais gentis que o necessário, alguém, em algum lugar, algum dia, poderá reconhecer em vocês, em cada um de vocês, a face de Deus."


Extraordinário nos envolve porque revela não somente a perspectiva de Auggie sobre sua própria deficiência. A história também abre espaço para narrativas em primeira pessoa de alguns dos personagens que participam de sua vida . Eles têm capítulos próprios onde ganham voz e têm a chance de expor suas impressões sobre o menino de rosto peculiar. Falam com sinceridade, como se o leitor fosse um amigo confidente. Falam sobre a dificuldade de lidar com a aparência de August pullman e de como a convivência com ele torna evidente a personalidade cativante do menino.

Uma das partes mais marcantes do livro, uma dessas "confissões" de personagens secundárias que enriquecem a história, é o capítulo da irmã mais velha, Olivia. Fica claro o amor incondicional que ela sente pelo Auggie ao longo de toda a narrativa:

"Nunca vi o August como as pessoas o viam. Eu sabia que seu rosto não era exatamente normal, mas não entendia porque as pessoas que não nos conheciam pareciam tão chocadas ao vê-lo. (...) 'Estão olhando o quê, droga?, eu dizia às pessoas, mesmo aos adultos'"


Ao mesmo tempo, fica evidente o mal estar que a irmã experimenta, em diferentes situações, ao lidar com a reação de espanto e preconceito das pessoas, além do ressentimento, por estar sempre em segundo plano desde que August nasceu.

"A mamãe e o papai sempre disseram que eu era a menininha mais compreensiva do mundo. Mas a questão é que eu apenas entendia que reclamar não adiantaria nada. Eu vi August depois das cirurgias: seu rostinho inchado e enfaixado, seu corpinho cheio de catéteres e tubos para mantê-lo vivo. Depois que você vê alguém passando por isso parece loucura reclamar por não ter ganhado o brinquedo que pediu ou porque sua mãe perdeu a peça das escola. Aprendi isso aos seis anos."

Como chegamos ao Extraordinário...


O título 'Wonder" apareceu em algum momento, nas pesquisas que fazemos para o blog, em algum site estrangeiro, como sugestão de leitura para irmãos de "crianças especiais".

Começamos a ler em família, no carro... Enquanto um dirigia o outro lia e todos ouvíamos. A história foi nos conquistando aos poucos, as personagens foram se tornando próximas de nós ao ponto de experimentarmos suas sensações como se fossem nossas. Confesso que houve momentos em que foi preciso disfarçar o nó na garganta e segurar o choro para dar continuidade à leitura. Em outros momentos a história também conseguiu arrancar boas gargalhadas.

Penso que um livro cumpre seu papel se consegue fazer o leitor verdadeiramente gargalhar ou chorar em meio à leitura. Se conseguir levá-lo a experimentar os dois- choro e risos- numa mesma narrativa, aí merece virar filme. E para nossa surpresa descobrimos que Extraordinário virou mesmo filme e já tem estreia prevista para Novembro nos Estados Unidos, com Julia Roberts e Owen Willson fazendo os pais de Auggie. O protagonista é interpretado por Jacob Tremblay que passou por uma transformação incrível de maquiagem para ter o rosto próximo ao descrito na narrativa do livro. A atriz Sonia Braga também compõe o elenco interpretando a avó de Auggie, que na história é brasileira. Enfim, esperamos que o filme seja tão cativante quanto o livro.

Compramos o livro, é claro, pensando no David. E ele, perspicaz que só, já nos primeiros capítulos interrompeu a leitura com o comentário "Eu sei porque vocês compraram esse livro... Foi por causa da Rebecca, né?

Para quem não leu as primeiras postagens, David é o irmão mais velhos da Rebecca, nossa "one of a kind girl". Assim como o protagonista de Extraordinário, Rebecca tem uma síndrome genética rara. A síndrome do August afetou de forma drástica a aparência do seu rosto mas não comprometeu em nada seu intelecto. Ele se torna um dos melhores alunos da turma na história . A síndrome da Rebecca, por outro lado, afeta seu desenvolvimento físico e neurológico em diversos aspectos.

O David se apaixounou pela Rebecca desde que a viu pela primeira vez... "A bebê mais fofa do mundo"... ele repete até hoje. Da mesma forma Olivia, irmã mais velha de Auggie, se desmanchou pelo irmão mesmo com seu rostinho nada convencional, no momento em que o conheceu.

Esse amor a despeito de ser gigante, vem acompanhado, tanto na vida real quanto no romance de Palacio por uma generosa dose de medos, dúvidas, questionamentos, frustrações e angústias que precisam ser percebidas, precisam ser ouvidas, precisam ser sentidas e curadas... Então, sim. Compramos o livro pensando no David. Lemos o livro pensando na Rebecca. Os dois precisam de cuidados. Os dois precisam ser representados, precisam se ver representados e este romance faz isso, em certa medida. É um livro que vale ser lido independente de haver ou não na família alguma pessoa com deficiênia. A hitória alcança a todos que em algum momento tiveram que lidar com as diferenças dos outros ou que em algum ponto da vida se sentiram diferentes demais em relação ao outros. É um bom recurso para pais e professores que querem ver seus filhos e alunos tornarem-se pessoas capazes de enxergar para além da aparência alheia, para além das limitações alheias... Uma importante reflexão para quem acredita que basta mudar a forma de olhar para vislumbrar o Extraordinário.

Confira o trailer emocionante do filme:


Trechos especiais do livro:

"Se eu encontrasse uma lâmpada mágica e pudesse fazer um desejo, pediria para ter um rosto comum, em que ninguém prestasse atenção."

" A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me enxerga desta forma."

"O legal de crianças pequenas é que elas não dizem coisas para tentar magoar você e, mesmo que às vezes façam isso, não sabem o que estão falando"

"Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil"

"Um dos motivos para eu ter deixado meu cabelo crescer no ano passado é que gosto do modo como a franja cobre meus olhos: isso me ajuda a tampar as coisas que não quero ver"

"Todo o que é nascido de Deus vence o mundo"

"...deveríamos ser lembrados pelas coisas que fazemos. Elas importam mais do que tudo. Mais do aquilo que dizemos ou do que nossa aparência. As coisas que fazemos sobrevivem a nós. São como os monumentos que as pessoas erguem em honra dos heróis depois que eles morrem."

"Já estive em parquinhos suficientes para saber que crianças podem ser cruéis"

"Você compra um bilhete quando nasce, e é só um acaso ter um bilhete bom ou ruim. É questão de sorte. Minha mente gira com isso, mas então surgem pensamentos mais suaves, como um terceiro violino em uma sinfonia de cordas. Não, não é tudo um acaso. Se fosse, o Universo nos abandonaria à própria sorte. E o Universo não faz isso. Ele cuida das suas criações mais frágeis de formas que não vemos."

"Então pensei como seria estar no céu um dia e o meu rosto não importar mais."

"Mas a melhor maneira de medir quanto vocês cresceram não é por centímetros, nem por quantas voltas conseguem dar na pista, ou mesmo por sua média de notas, embora essas coisas, sem dúvida, sejam importantes. A melhor medida é o que vocês fizeram com seu tempo, como escolheram passar os dias e quem cativaram. Para mim, essa é a melhor medida do sucesso."


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