Ninguém deveria ter que deitar no chão de um banheiro!

02/11/2018

Você deitaria no chão de um banheiro público? Esta muitas vezes é a única alternativa para a troca de fraldas de uma pessoa com deficiência.

A maioria dos sanitários públicos tem o símbolo de acessibilidade. Isso, em tese, indica que o banheiro possui as adaptações necessárias para a utilização do espaço por uma pessoa com deficiência.

Acessibilidade, no entanto, vai muito além de sinalização, rampas e barras de apoio. Uma pessoa com mobilidade reduzida que não disponha da autonomia necessária para sentar-se, por exemplo, precisará ser trocada na posição horizontal.

A nossa pequena, Rebecca, ainda vai fazer 3 anos e já começamos a sentir as dificuldades e os constrangimentos de trocá-la em banheiros públicos. Os trocadores são projetados observando-se os padrões de uma criança típica, com desenvolvimento normal. São trocadores que comportam com segurança e conforto um bebê, mas não atendem a crianças maiores. 

Uma criança com a idade da Rebecca já seria capaz de usar o vaso sanitário com certa autonomia. Nossa filha , no entanto, devido à hipotonia acentuada, ainda precisa que a troca de fraldas seja feita na posição deitada. Os trocadores, por sua vez, não mais comportam seu peso e estatura. Nós fazemos malabarismo para usá-los nos shoppings, sempre sob os olhares curiosos de outros pais com seus bebês menores.

O que fazer, então, com uma criança grande, um adolescente ou um idoso que usam fraldas e que não podem sentar-se sem apoio? Como realizar sua higiene em locais públicos de maneira digna?

Sarah Brisdion, mãe de Hadley, um menino de sete anos com paralisia cerebral, lançou uma campanha pela instalação de trocadores tamanho adulto no Reino Unido, através de seu grupo comunitário on-line, o Hadley's Heroes:

"Trocar alguém que você ama no chão do banheiro é devastador e pode ser muito perigoso também, devido aos milhares de germes presentes no piso do banheiro. Mas sem trocadores ou macas adaptadas em banheiros ditos acessíveis, é exatamente isso que famílias como a minha enfrentam todos os dias, ou temos que optar por não sair de casa. Infelizmente, há muito pouca consciência pública sobre essas questões e, portanto, os banheiros mais acessíveis não incluem esses equipamentos vitais. Isso é algo que estou trabalhando muito para mudar. "

Sarah Brisdion começou a tirar selfies de si mesma em toaletes de diferentes estabelecimentos, inaugurando uma forma provocativa e nada convencional de arrecadar fundos para a campanha que já ganhou milhares de adeptos pelo mundo usando Hashtags como:

#PantsDown4Equality ("calças arriadas por igualdade") 

#ChangingPlaces ("trocadores")

A intenção é conscientizar e mobilizar, de forma bem humorada e irreverente, sobre a importância de tornar os banheiros realmente acessíveis a todos. Afinal, se o sanitário não é acessível, o estabelecimento a que o banheiro pertence também não é. E se um espaço constitui um empecilho ao direito de ir e vir do indivíduo, este espaço é excludente.

Pais de crianças "especiais" precisam planejar minuciosamente cada passo antes de sair de casa, mesmo quando se trata de um passeio simples. Muitas famílias desistem de sair quando pensam nos constrangimentos e nas dificuldades que terão de enfrentar diante da necessidade do uso do banheiro para troca de fraldas da pessoa com deficiência.

Não me parece uma demanda exorbitante que todas as crianças com deficiência, bem como seus familiares, tenham garantidos seus direitos de ir e vir, de ser e estar no mundo, de usufruir dos espaços com segurança, com autonomia e sem embaraços.

Quando você tiver que usar um banheiro público novamente, tente visualizar uma criança em cadeira de rodas ou um adolescente com mobilidade reduzida, ou um idoso incontinente neste mesmo ambiente. Perceba a largura das portas, a altura das pias, o tamanho dos trocadores nos "espaços-família", imagine-se erguendo e acomodando a pessoa com deficiência dentro deste banheiro para trocá-la, imagine o passo a passo... Você se dará conta de que falta muito para que esta pessoa e sua família tenham a chance de utilizar espaços tão triviais de maneira digna.

Quando olhamos com empatia e alteridade para a pessoa com deficiência, o nosso conforto já não é o bastante. O nosso bem estar não basta se o do outro não for contemplado.

Que o mundo seja lugar de todos!

Que todos tenham lugar no mundo!


Texto: Sara Lopez

Imagem: https://www.hadleysheroes.co.uk/

Galeria de fotos da campanha no Reino Unido:


Referências:

https://www.hadleysheroes.co.uk/

https://rollinwithmama.com/no-more-toilet-floors-changing-places-sarah-brisdion/<br>

https://www.hadleysheroes.co.uk/author/sarah-brisdion/<br>



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