O caminho no meio das pedras

24/08/2017

"Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho"

(Carlos Drummond de Andrade)


Quantas vezes me vejo ali, diante da pedra de Drummond.

Atônita e inerte diante da pedra no meio do caminho.

A pedra que sob o olhar das retinas fatigadas se faz montanha e impede que se vislumbre um destino que justifique a caminhada.

Pedra insolente que aumenta e cresce na mesma medida em que diante dela se detém o caminhante, hipnotizado a ponto de duvidar de que outrora houvesse caminho.

Quem nunca se viu impotente diante de um obstáculo?

O poema de Drummond, alvo de tantas críticas pela sua simplicidade e repetição talvez seja propositadamente simples e repetitivo para nos dar a exata sensação de estagnação que acomete o viajante diante das pedras... pedras aparentemente intransponíveis, que exercem sobre ele um magnetismo paralisante.

Tal qual andarilho aventureiro desprovido de recursos para a jornada, experimento a caminhada torpe e imprevisível que se revela, de tempos em tempos, diante dos pés cansados.

No curso desta caminhada, deparo-me com o dilema de quem anseia por seguir em frente mas já não consegue reconhecer o caminho ....Um dilema entre medo e fé, entre fraqueza e esperança.

Diante dos olhos, a pedra.

Dentro do peito, uma promessa.

Uma promessa que olha para o Caminho mais do que para a pedra. Nem menos metafórica, nem menos poética que Drummond, é a promessa que redimensiona os meus medos:


"... todos os morros e montes serão aplanados; 

os terrenos cheios de altos e baixos ficarão planos, 

e as regiões montanhosas virarão planícies." 

(Isaías 40:4-8)


No meio das pedras uma nova poesia se escreve. Não mais pelas mãos do poeta-homem que evoca toda a minha fraqueza, mas pelas mãos do Poeta insondável de cujos versos emana toda a força. E assim os olhos cansados se elevam por cima da pedra e ela já não impede a caminhada.

O caminho sempre esteve ali. O Caminho, esse sim precisa ser mais relevante do que a pedra neste poema-vida de cada um de nós caminhantes.

E que Drummond me perdoe a ousadia de inverter a lógica dos seus versos tão sinceros, sujeitando as pedras ao Caminho nesta releitura de esperança:


No meio das pedras

Há um caminho.

Há um Caminho

no meio das pedras.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que

No meios das pedras

Há um caminho.

Há um Caminho

no meio das pedras.

Posts mais antigos em One of a Kind