O Lactário: uma crônica real

08/04/2017

Todos os dias nos encontrávamos ali, pelo menos quatro vezes por dia, aquela trupe de mães cansadas e eu, as walking dead moms da Perinatal, para extrair dos nossos corpos lânguidos a essência branca, opaca, rica em nutrientes, artificialmente sugada, envasada e rotulada para saciar nossos pequenos, impossibilitados de mamar ao seio, que lutavam pela vida na UTI neonatal.  

A enfermeira relembrava as orientações de higienização antes de entrarmos na sala da ordenha. Sim, ordenha! Nem sabia que esse termo se aplicava a humanos mas ele estava lá, escrito no quadro de anotações com o passo a passo do procedimento. Despidas da cintura para cima, colocávamos a touca, a máscara, o capote (avental descartável) e lavávamos as mãos e os seios num lavatório que lembrava os bebedouros coletivos de CIEP da minha infância. Depois retirávamos um kit esterilizado e lacrado de mamadeira e acessórios de dentro do armário e, antes de entrar, uma borrifada de álcool em gel nas mãos para garantir o extermínio de qualquer bactéria junto com a proteção natural da epiderme que em breve estaria toda rachada e ressequida.

Finalmente podíamos entrar na dita sala. Poltronas individuais dispostas ao longo da parede e uma tubulação de sucção onde acoplávamos o kit para extração do leite. Na frente de cada poltrona havia uns puffs quadrados providos de vidrinhos de álcool 70 para desinfetarmos a própria poltrona, o puff e outra vez as mãos, se quiséssemos. É o ambiente propício para se desenvolver um TOC. São tantas instruções de limpeza, tantas recomendações de higiene... a sensação que eu tinha era de que ao menor descuido toda a UTI poderia ser contaminada. Era nesse clima tenso que escolhíamos nossos lugares e começávamos a extrair o leite.

Uma TV, ligada sempre no mesmo canal, quebrava o silêncio daquela sala gélida exibindo a programação insossa que eu acompanhava por pura falta de opção. Lembro-me de ouvir uma das mães comentar que o horário do lactário era para ela uma terapia, era o momento de sentar e assistir TV, de relaxar e não pensar em nada. Algumas delas estavam lá há meses repetindo aquele ritual exaustivo e tinham virado "experts" na ordenha, orientando as novatas como eu sobre o uso de todo aquele material.

De repente a Gisele Bündchen, alta, pele dourada, magérrima, com suas madeixas loiras e sedosas aparece caminhando à beira da piscina num dia ensolarado, segurando o shampoo da propaganda na TV. Se estivéssemos num salão de beleza talvez uma conversa das mais fúteis sobre dietas e tratamentos capilares tivesse ganhado espaço entre nós, mulheres comuns, assistindo aquele comercial mentiroso do shampoo que a Gisele com certeza não usa. Mas não, ali não havia ocasião para esse tipo de prosa frívola.

Tenho certeza de que, assim como eu, ninguém teve inveja da Gisele, ninguém desejou ter seus cabelos ou estar naquela piscina... Estávamos todas ali preocupadas em espremer nossos seios até o limite para garantir os mililitros necessários à dieta dos nossos bebês. Não havia espaço para vaidades. Estávamos expostas, umas diante das outras, sem o menor pudor, exibindo nossas silhuetas assimétricas, disformes, envoltas em cintas pós-parto, sem maquiagem, sem perfume, sem acessórios, cabelos desalinhados e olheiras profundas e nada disso importava.

De repente uma mãe, altura mediana, pele negra, robusta, de seios fartos com suas madeixas escuras e crespas entrou sala adentro carregando seu kit com pelo menos quatro mamadeiras e calmamente sentou-se diante de nós enchendo em minutos todas elas (quase meio litro de leite!) enquanto eu, depois de quase meia hora de ordenha, ainda não tinha enchido metade de uma. "Eu tenho muito leite..." Disse ela, como que sem graça por humilhar com sua fartura o restante das mães menos abastadas.

Despediu-se de todas nós e caminhou de uma ponta a outra da sala com todo aquele leite a trasbordar do colo, mais imponente do que a Gisele na passarela. Triunfante, top mother! O comercial de shampoo ecoava como um ruído sem nexo na tv enquanto nós a seguíamos com os olhos, admiradas. Tenho certeza de que, assim como eu, todas as mães naquele momento sentiram inveja e pensaram:

"Ahhh, eu queria ser como ela..."


Separando algumas mamadeiras ela disse à enfermeira que eram para doação. O excedente de leite materno era devidamente armazenado e encaminhado para o banco de leite de uma maternidade pública perto dali.

Até hoje lembro daquelas mães com a maior admiração. Todas estavam ali porque seus filhos por algum motivo não podiam ser amamentados ainda. Algumas mais fortes, como essa mãe que esbanjava leite e outras, mais abatidas como eu, tentando ainda se adaptar àquela realidade inesperada. Quis muito amamentar. Todos os dias perguntava à enfermeira se a Rebecca já podia ser amamentada. Mas não, nem segurá-la era permitido. Nós a acariciávamos pela abertura da incubadora e assistíamos as enfermeiras fazendo todo o restante. Ela conseguia sugar na madeira, que não exige muito esforço de sucção, mas mamar ao seio só foi liberado depois de uma semana de internação. Foi um dos dias mais emocionantes da minha vida. Ela mamava, mas com dificuldades, e sempre tínhamos que complementar a dieta com a mamadeira, fosse com o leite retirado no lactário ou com a fórmula, mas era maravilhoso tê-la nos braços, finalmente. Depois de receber alta, ainda mamou ao seio até os três meses, sempre assim, com dificuldade, chorando muito, aceitava melhor a mamadeira. E logo meu leite foi escasseando até que sua dieta passou a ser exclusivamente o leite em fórmula.

Mamar parece algo tão simples, uma habilidade inata nos bebês. Não é tão simples assim. No útero o bebê recebe os nutrientes, os anticorpos e o oxigênio pela corrente sanguínea através do cordão umbilical. Aos nascer precisa coordenar, pela primeira vez, respiração, sucção e deglutição. Para bebês com algum tipo de comprometimento neurológico, coordenar essas habilidades pode ser um desafio muito maior.

Alguns fatores que dificultam a amamentação incluem:


  

  • Hipotonia, que pode causar controle anormal das estruturas orofaríngeas, resultando em sucção fraca ou descoordenada
  • Reflexos de sucção, de engasgo (reflexo faríngeo) e de deglutição fracos
  • Falta de alerta e energia necessários para a alimentação
  • Disfagia, especialmente em bebês com paralisia cerebral
  • Excessiva hiperextensão do pescoço e dos ombros, comprometendo o posicionamento da língua e o movimento da mandíbula
  • Doença respiratória, dificultando a respiração e a deglutição

Nestas situações é aconselhável a avaliação e acompanhamento de um fonoaudiólogo que oriente no estímulo à sucção. Alguns métodos utilizados por estes profissionais contribuem para a amamentação:

  • · Suporte do queixo, bochecha e movimento da mandíbula para ajudar e facilitar um padrão de sucção mais forte se o controle motor oral for baixo ou se a sucção for fraca ou desorganizada. · 
  • A modificação do posicionamento e da pega. Posições diferentes podem ajudar bebês com fissura labial e / ou palatina bem como crianças com deficiências neurológicas. ·
  •  Se a amamentação não se der de maneira plena, a mãe deverá suplementar o aleitamento materno através de um dispositivo alternativo. ·
  •  Monitoramento contínuo de nutrição e hidratação, incluindo volume, freqüência de transferência de leite e ganho de peso ao estabelecer o método de alimentação.

A UNICEF desaconselha o uso de qualquer bico artificial como mamadeiras ou chupetas, que podem dificultar o aleitamento materno além de prejudicar futuramente o desenvolvimento da arcada dentária e da fala. A fonoaudióloga do Instituto Fernandes Figueira (Fundação Osvaldo Cruz) Nádia Rodrigues Mallet desenvolveu um dispositivo alternativo de alimentação para recém-nascidos de alto risco. Um copinho que, além de possuir tampa de pressão e possibilitar a visualização do volume de leite que chega à boca do bebê proporcionando segurança no armazenamento e na administração da dieta, possui também um bico dosador e ondulações redutoras de fluxo que facilitam a coordenação da sucção, deglutição e respiração do recém-nascido, ajudando nas habilidades orais e facilitando a pega no seio materno. A criação foi patenteada e representará um avanço no cumprimento dos "Dez passos para o sucesso do aleitamento materno" estabelecidos pela OMS em parceria com a UNICEF.

A Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), publicada pelo Ministério da Saúde em 2011 ressalta que "O aleitamento materno é a estratégia isolada de maior impacto na mortalidade na infância e, segundo evidências científicas, atribui-se ao aleitamento materno a capacidade de reduzir em 13% as mortes de crianças menores de cinco anos por causas preveníveis em todo o mundo. O aleitamento materno tem repercussão direta ou indireta na vida futura do indivíduo, auxiliando na redução de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e obesidade, reduzindo o risco da mulher que amamenta de contrair câncer de mama e de ovário e de ter diabete tipo II. Além disso, o aleitamento materno promove a saúde física e mental da criança e da mãe, estreitando o vínculo entre eles."

Referências:

  • Brasil. Ministerio da Saude. Área Técnica de Saúde da Criança e Aleitamento Materno Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Secretaria de Atenção à Saúde. Iniciativa hospital amigo da criança. Brasília, janeiro de 2011. Disponível em <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/iniciativa_hospital_amigo_crianca.pdf>
  • Medela, "Feeding Special needs baby" disponível em: <https://www.medela.co.za/breastfeeding-professionals/advice/lactation-period/feeding-special-needs-baby>

Para saber mais sobre o funcionamento dos bancos de leite humano acesse o link da Pastoral da Criança:

https://www.pastoraldacrianca.org.br/amamentacao/banco-de-leite-humano-como-funciona-e-como-doar

E o link da Fiocruz:

https://rblh.fiocruz.br/pt-br/amamentacao-e-doacao

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