O LUTO simbólico

12/07/2018

A gestação é um momento único de expectativas e de idealizações. São nove meses embalando no ventre um filho que você ainda não conhece mas já ama, um filho com quem você já sonha. Você imagina o rostinho, os trejeitos, você idealiza uma personalidade, você prevê os primeiros cuidados, os primeiros passos, a creche, a escolinha, a aula de Ballet e de natação, você se prepara e se cuida e tudo durante estes nove meses gira em torno da criança que você espera ansiosamente para conhecer.

Então seu bebê chega, você finalmente o conhece e é surpreendida com a notícia de que ele será diferente, muito diferente da criança que você tinha em mente, a notícia devastadora de que seu bebê destoa totalmente daquele que você idealizou. Ter um filho diagnosticado com uma deficiência grave é quase como receber um atestado de óbito. É lidar com a dor da morte do filho do seu imaginário.

O luto é simbólico porque não existe uma morte concreta. É um luto alegórico porque gira em torno de alguém que sequer veio a existir e, ainda assim, envolve uma dor dilacerante.

Parece um tanto sombria, pesada e melancólica essa analogia. Uma puérpera experimentando um sentimento de luto, tendo o filho consigo é, no mínimo, antagônico e confuso. Luto no lugar de celebração? Morte diante da vida? Mãe enlutada com o filho vivo? Uma confissão inconcebível!

Mas é exatamente esta a sensação. Foi exatamente assim que experimentei o diagnóstico da Rebecca. Um luto. Simbólico, sim, mas terrivelmente doloroso. Um luto proibido, "não autorizado" segundo a psicóloga Elaine Gomes dos Reis em A morte do filho idealizado:

"Quando morre o filho idealizado, surge a dor, a angústia, o desespero, o medo, a tristeza: o luto. O filho está lá! É outro, completamente diferente do que foi desejado, mas está lá, e o casal (muitas vezes somente a mãe) não tem autorização para chorar e ficar de luto pelo filho que morreu. As pessoas ao redor cobram ações e atitudes, indiferentes ao conflito de sentimentos dos pais." *

Qualquer processo de luto envolve sentimentos de culpa. No luto simbólico não seria diferente. A culpa se torna um agravante da mágoa do enlutado. "O que eu fiz" ou "o que eu deixei de fazer para ocasionar a deficiência?

"Você tomou alguma coisa? Fez todos os exames? Teve Zica? Teve rubéola? Fez as vacinas? Se aborreceu durante gravidez? Foi planejada? Você e o pai têm algum grau de parentesco?" 

 As perguntas surgiam de todos os lados, somando-se àquelas que inevitavelmente surgiam de dentro de nós mesmos, e cada uma delas, cada umas dessas perguntas acertava como uma punhalada sobre uma ferida aberta... nunca cicatrizava, não era permitido sarar.

Num momento de desabafo aflito com minha mãe, lembro-me de ter falado sobre este luto sem saber que ele existia: "A tristeza é tão grande, como se eu tivesse perdido alguém muito querido". Ela me confortava, como sempre fez desde que eu era criança, dizendo que não tinha problema eu me sentir assim.

Quando li pela primeira vez este texto da Elaine Gomes, falando sobre o processo de luto simbólico que ela mesma experimentou ao ter a filha diagnosticada com Algeman, pude aceitar meu próprio luto, pude permitir a mim mesma o direito de me sentir enlutada, mesmo com minha filha linda, delicada e amada nos braços. Ela, a Rebecca, estava nos meus braços, no meu colo, mas a outra, a que eu idealizei, essa não estava e eu chorei por ela, eu ainda choro, confesso. Porque todo luto é, de certa forma, crônico. Ninguém supera facilmente, nem de um dia para o outro, a morte de um filho, ainda que esta morte seja simbólica.

Eu tive que me despedir da filha idealizada para acolher a filha real. Eu me despeço todos os dias um pouquinho desta maternidade idealizada para abraçar minha maternidade singular. Eu amo esta maternidade desafiante, eu amo os caminhos que esta experiência tem traçado diante de mim, eu amo, acima de tudo a minha filha real, com todas as suas limitações reais, com todas as suas singularidades. Mas eu sinto sim, estranhamente, uma saudade de alguém que eu sequer conheci. Sinto saudades da filha idealizada, dessa imagem que vai, aos poucos, se desconstruindo dentro de mim. E quanto mais eu permito esta desconstrução, por mais dolorosa que seja, eu me permito a ressignificação dessa maternidade, eu me permito um novo ideal de ser mãe.

Para lidar com este luto, com esta saudade, eu mergulho de cabeça o mais fundo que eu posso neste novo mundo que eu tenho aprendido a amar: o mundo das diferenças. Eu me cerco das diferenças o máximo que posso e desafio meus mais íntimos medos para vasculhar esse universo de singularidades na sua máxima amplitude. E pouco a pouco descubro o quanto minha realidade era limitada antes da Rebecca, o quanto minhas idealizações eram egoístas e o quão vulnerável era o meu amor.

Toda morte precisa gerar vida, de alguma maneira. A morte, mesmo a simbólica, não pode ter um fim em si mesma. É preciso ter algo depois dela. Algo precisa nascer a partir dela. Todo enlutado deveria buscar esse renascimento. Muita coisa nasceu em mim a partir deste luto e coisas novas nascem todos os dias. A cada dia que passa eu sinto menos a dor da perda e celebro mais as dádivas do que veio a ser um (re) nascimento.

              *Alves,   Elaine Gomes dos Reis.  A morte do filho idealizado / The death of an idealized child. Mundo saúde, 2012, disponível em:<https://bvsms.saude.gov.br/bvs/artigos/mundo_saude/morte_filho_idealizado.pdf>

 




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