Reconstruindo o mundo dos perfeitos

21/12/2017

Quando éramos perfeitos, todos os espaços nos acomodavam e não havia restrições ao nosso direito de ir e vir.

Quando éramos perfeitos, todas as ruas eram transitáveis, todos os caminhos eram viáveis, o mundo era adequado para nós e nós, adequados para o mundo...

Quando éramos perfeitos, não importava se o terreno era plano ou acidentado, não fazia diferença se o que vinha pela frente era escada rolante, degrau de concreto ou elevador.

Não importava se houvesse buracos, não importava que não houvesse rampas, não importava se a vaga do carro não fosse tão perto da entrada.

Quando se tem uma pessoa com deficiência na família, tem-se uma família toda com deficiência. A família inteira experimenta e vivencia no dia-a-dia as limitações, as dificuldades, os impedimentos e as restrições que a deficiência impõe. A família toda se sensibiliza e sofre todas as vezes que um espaço transmite a mensagem de que aquele lugar não foi pensado para todos.

Quando éramos perfeitos, todos os espaços eram convidativos. Agora, nossas limitações ficam em evidência devido à falta de acessibilidade dos espaços que nos cercam. Nossas limitações se destacam e se evidenciam a cada calçada onde o carrinho da Rebecca não pode ser empurrado, em cada porta estreita pela qual ele não passa, em cada edifício onde precisamos dobrar e abrir, montar e desmontar dezenas de vezes esse mesmo carrinho para entrar e sair, subir e descer dos lugares que não foram pensados nem projetados para nós.

Agora que não somos perfeitos, tentar chegar a qualquer lugar tornou-se um desafio diário de transposição de obstáculos.

Quando éramos perfeitos, nosso olhar era IMPERFEITO.

Nosso olhar não notava a desigualdade desenhada nos espaços, as injustiças delineadas nos trajetos, a exclusão demarcada nos caminhos. Quando éramos perfeitos não percebíamos a imperfeição que se configura nos mais diversos meios.

Se um lugar é projetado sem que se leve em conta as necessidades de quem não tem as condições físicas de usufruir dele, a deficiência está, na verdade, no lugar. O defeito está no projeto, na idealização do espaço, que não foi pensado para todos. Nesse sentido, a imperfeição não é da pessoa com deficiência em si, não é da "família com deficiência", mas sim, do próprio ambiente. Se os ambientes que nos cercam não foram projetados de maneira a garantir inclusão social, se os espaços supostamente abertos a todos não são de fato acessíveis a todos, a deficiência está na concepção excludente da organização desses espaços.

Quando éramos perfeitos não percebíamos o quão excludentes certos ambientes poderiam ser. Ambientes tão comuns, tão comumente utilizados por todos, como banheiros públicos, salas de cinema e provadores de roupas fazem com que uma "família com deficiência" pense duas, três vezes antes de sair de casa e encarar o passeio, as compras, o evento...

A consequência gerada por esses obstáculos, por essas barreiras arquitetônicas e urbanísticas que inviabilizam o direito igualitário de ir e vir, é o constrangimento, é a reclusão. É comum que estas famílias passem a evitar estes espaços, que passem a evitar a saída de casa. É comum que além dessa exclusão espacial, sofram ainda pelos julgamentos e acusações devido ao seu isolamento.

Os espaços, quando não acolhem, acabam inevitavelmente excluindo. Uma arquitetura inclusiva, em contrapartida, passa a mensagem de que a pessoa com deficiência tem importância, de que suas necessidades foram consideradas na concepção daquele ambiente, de que ela é bem vinda àquele lugar.

Hoje, mais do que nunca, queremos viver, ser e estar num mundo que não seja somente "o mundo dos perfeitos", mas um mundo que se transforma pelo aperfeiçoamento do olhar de quem o constrói, de quem o idealiza, um mundo que se projeta para abraçar e não para impedir, um mundo que acolha as diferenças nos seus espaços... espaços que convidem a todos, que permitam a integração de todos, espaços de inclusão, espaços de amor.


Alguns exemplos de acessibilidade mundo afora: 




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