Pai não ajuda

09/10/2017

Se o pai dos meus filhos ajuda? Não, ele não ajuda!

Dentre os muitos sinônimos do verbo ajudar está a palavra COADJUVAR. Uma definição muito pertinente com a visão nebulosa que ainda hoje se tem do conceito de paternidade.

Nesse sentido, quem ajuda, coadjuva. Ou seja, desempenha um papel coadjuvante, secundário.

Em se tratando da criação dos filhos, dizer que um pai "ajuda" pressupõe que uma outra pessoa (normalmente a mãe) é a principal responsável pelos cuidados com a prole e que o pai entra nessa relação como um mero colaborador, um auxiliador. Essa ideia não só reafirma o estereótipo de uma paternidade assistencialista como também tira o mérito daqueles pais que de fato assumem uma postura de parceria e de companheirismo na criação dos filhos.

Quando me perguntam se o pai dos meus filhos ajuda...

NÃO, ELE NÃO AJUDA.

Ele assume, ele se apropria, ele toma para si as responsabilidades de uma paternidade que anda de mãos dadas com a maternidade, as responsabilidades de um pai que entende seu papel de parceria e de mutualidade.

Se eu concordasse em que ele me ajuda, estaria sendo injusta primeiro comigo, como mãe, por deixar subentender que as obrigações para com os filhos estão todas na minha conta enquanto ele aparece como um socorrista, ou alguém que está fazendo um favor. Estaria, acima de tudo, sendo injusta com ele, como pai, por colocá-lo numa posição de coadjuvante numa história da qual somos, na verdade, coautores.

Uma reportagem do G1, de março do ano passado, mostrava a preocupação da Sociedade Médica com o aumento dos casos de mães de bebês com microcefalia que têm sido abandonadas pelos parceiros no Nordeste. Chega a soar irônico o uso da palavra "parceiros" na reportagem. Não eram parceiros e nem coadjuvantes se permitiram ser. O abandono diante de uma situação tão delicada é só mais um exemplo de como o conceito de paternidade ainda precisa ser debatido e reconstruído na nossa sociedade. Há muitas mães criando sozinhas crianças com deficiência, assim como há muitas mães criando sozinhas filhos sem deficiência alguma. E os dados só dão conta do abandono físico, não temos ideia de quantos filhos têm sido emocionalmente abandonados por pais que, mesmo vivendo sob o mesmo teto, não percebem que a responsabilidade pela criação dos filhos precisa ser integralmente assumida por ambos os genitores.

A ideia de um pai que participa à distância, que paga as terapias mas nunca entrou no consultório pra acompanhar uma sessão... que banca a escola mas não sabe o que o filho está estudando e nunca sentou pra fazer um dever de casa junto... aquele que compra o brinquedo mas nunca está ao lado pra ensinar as regras do jogo... Essa ideia do pai que mais parece um financiador, um patrocinador, ainda é vista com certa naturalidade, mesmo nos dias de hoje.

"Ahh... mas nem tudo o pai consegue fazer como a mãe, tem coisas que só a mãe tem jeitinho pra fazer".

Novamente, não!

O pai dos meus filhos me mostra, dia após dia, que essa fala não é necessariamente uma verdade e sim, uma conveniência para muitos homens. Não tem nada que ele não faça e não tem nada que não façamos juntos. E não estou só falando de trocar fraldas e preparar mamadeiras, estou falando de uma lista que vai desde o futebol com o mais velho até os cuidados de enfermagem com a nossa bebê.

Nós, mulheres, acabamos por reforçar a ideia do pai coadjuvante quando nos colocamos numa posição de insubstituibilidade. Sustentamos muitas vezes um discurso de que somos insubstituíveis em determinadas funções ao mesmo tempo em que nos queixamos da sobrecarga no cuidado com os filhos. Precisamos enxergar no pai essa capacidade de ser pai integralmente para que ele então assuma, integralmente, a paternidade.

Com o nascimento da Rebecca e com todos os cuidados que ela requer, essa necessidade de dividir igualmente os cuidados, de assumir em parceria a criação dos filhos, essa base que já vinha sendo construída quando nosso primeiro filho nasceu ficou ainda mais sólida. E por ele assumir sua paternidade plenamente e por eu entender que não sou a insubstituível mulher maravilha é que conseguimos organizar nossa vida de modo a não sobrecarregar um ao outro. Por ele ser pai, no sentido pleno da palavra, eu pude e posso me ausentar do hospital durante as internações da Rebecca, sempre que é preciso, na certeza de que tudo vai ficar bem, porque ele está ali cronometrando os horários das dietas, fazendo os curativos e verificando a dosagem dos medicamentos com muito mais zelo do que as enfermeiras que entram e saem. E quando ele deixa o hospital e eu fico, ele também se permite descansar por saber que eu vou dar continuidade aos cuidados da mesma maneira. E assim nós aprendemos juntos, fazemos juntos, e em alguns momentos também nos dividimos e revezamos e sentimos falta um do outro, mas nos sentimos unidos, mesmo estando distantes.

Se em nossa casa estamos vivendo o sonho encantado da igualdade dos sexos e da perfeita harmonia familiar? Não, ninguém está! Se temos desavenças, atritos e discordâncias? Ohhh... se temos! E quem não? Mas diante dessa enorme responsabilidade, a responsabilidade de cuidar dos filhos, desses pequenos que dependem de nós e que se espelham em nós... diante dessa incumbência tão prioritária já não há, não pode haver espaço para disputas de poder, não há nem pode haver um ator principal e um coadjuvante. Os dois têm que ser protagonistas!

E assim, entre erros e acertos, vamos aprendendo, como todos que se permitem aprender, a viver em cumplicidade. A crescer juntos.

Vamos aprendendo a fazer o melhor com o que temos em mãos no tempo do hoje.

O que temos em mãos hoje?

Temos as mãos um do outro!

Temos um ao outro...

                                   De mãos dadas.