Seleção de memórias

18/10/2017

Arquivando lágrimas e compartilhando sorrisos


O celular começa a travar. O sistema vai ficando lento... os aplicativos demoram a abrir... O armazenamento está no limite e uma mensagem insistente e redundante me avisa: "algumas funções do sistema podem parar de funcionar". O pleonasmo é por conta do smartphone mesmo (ele é smart, não culto!). Então, antes que aconteça das "funções não funcionarem" é melhor começar a esvaziar a memória e deletar umas centenas de mídias sem utilidade. Hora de descarregar no computador somente aquelas fotos e vídeos que interessam e salvá-los nos arquivos pessoais, abrindo espaço para novos registros.

Quem dera fosse assim também a vida. Que pudéssemos escolher as memórias a serem preservadas... Que fosse possível selecionar somente as nossas melhores poses, nossos melhores momentos, que pudéssemos deletar a lembrança daqueles dias desfocados, daquelas horas embaçadas, se pudéssemos simplesmente trocar por novos aqueles registros que não nos alegram... E num clique desaparecer com a memória dos nossos medos, das nossas mágoas e das nossas frustrações...

Não fomos programados com essa capacidade. Você pode fazer todo o esforço do mundo para apagar aquela lembrança ruim, aquela pessoa que te fez mal, aquela experiência que acabou com seu dia... Mas ela continuará lá, arquivada nas pastas da memória, não dá para deletar não dá para salvar num HD externo, elas ficam para sempre internalizadas em nós. O que muda é a frequência com que você visita essas memórias... Aos poucos você aprende a abrir cada vez menos essas pastas. Você sabe que elas estão lá, mas não as abre. Você escolhe visitar outros arquivos, outras memórias, aquelas que realmente merecem ser recordadas.

Mas voltando ao meu celular... Antes que travasse de vez, comecei a descarregar as mídias no computador. Percebi que quase todas as fotos eram da Rebecca e todas, tiradas no hospital. Nem todo mundo sabe, mas já se vão cinco meses de internações consecutivas, por conta de infecções urinárias de repetição. Nos primeiros posts do blog, relatamos que além da síndrome genética, a Rebecca tem uma variante anatômica das vias urinárias que favorece infecções e o tratamento, no caso dela, demandou uma série de intervenções cirúrgicas e longos períodos de medicação intravenosa  que têm se arrastado até agora.

Enfim, passei todos aqueles vídeos e fotos para o computador. Em alguns segundos, vi os últimos 5 meses da vida da nossa pequena sendo transferidos de um dispositivo ao outro e por alguns instantes lamentei que não houvesse fotos dela na praia, ou nas terapias, ou na creche, ou no sofá com o irmão, ou na banheira que ela tanto gosta, ou na nossa cama, ou na rede, como eram as fotos de antes... por alguns instantes me lamentei, por mim, por ela, pelo pai, pelo irmão, pela falta de mídias em cores vibrantes como as que costumávamos ter, pela falta de registros mais alegres.

Os últimos cinco meses pesavam no meu celular. Os últimos cinco meses pesam na alma. O corpo e a mente começam a dar sinal de que precisam de alívio, de que precisam se esvaziar um pouco, como o meu aparelho, do peso intenso dessas memórias.

Pensei em deletar tudo e quem sabe assim mandar embora junto com as fotos um pouco da angústia que me veio naquele instante. Mas esses registros fazem parte da nossa história, fazem parte do que somos e do que estamos nos tornando. Essas fotos e vídeos da Rebecca, que compartilhamos entre os mais íntimos durante estes últimos meses, mesmo que não sejam os melhores momentos da vida dela, mesmo que não retratem os momentos de alegria que idealizamos para ela, ainda assim são nossos momentos. A vida não se resume pela timeline do facebook, a de ninguém se traduz ali, naquela cronologia dos sonhos, recheada de momentos alegres e dos nossos melhores ângulos... Na linha do tempo virtual colocamos nossa seleção de sorrisos... Na linha do tempo real, os sorrisos são permeados por uma coleção de pesares. Mesmo as memórias mais alegres mesclam-se o tempo todo com outras tantas memórias menos coloridas, menos nítidas, menos enquadradas, algumas das quais queremos nos desvencilhar, memórias que ninguém faz questão de compartilhar.

Se fôssemos relatar com detalhes todos os últimos acontecimentos destes cinco meses este texto seria uma lamúria interminável. Daria para escrever um livro se resolvêssemos minuciar cada evento, cada uma das cirurgias, as anestesias, os acessos, os exames com contraste, as dezenas de raio x, os "passeios" de ambulância, as noites que ela não dormiu com dor e as nossas noites em claro no sofá de acompanhante do quarto ou na poltrona da UTI, as compressas geladas para controlar a temperatura, os cateterismos, os exames de sangue, os curativos, os banhos de leito, a falta do sol, do ar fresco, a falta de cor, a falta de casa, a falta de estarmos os quatro reunidos como família... Dava pra escrever um livro. Mas prefiro resumir tudo aqui nesse parágrafo e colocar um ponto final.

Se esse blog não é um diário, como tantos outros são, e se aqui não há relatos mais pormenorizados é porque escolhemos que as memórias aqui registradas sejam mais leves. Por outro lado, não seria honesto relatar as experiências com a Rebecca sem mencionar as dificuldades. E são muitas. Não dá para romantizar a criação de um filho com deficiência. Nem tudo é superação, nem tudo remete a otimismo e força. Tem muita fraqueza sim, tem desapontamentos, tem desânimo e dor. E por mais que o foco dos relatos seja sempre naquilo que pode trazer esperança e força, é preciso que haja também menção daquilo que traz desesperança e esmorecimento nesse cotidiano. É preciso, para que outros pais que estão nessa caminhada se vejam representados. Quando leio relatos de pais de crianças com deficiência, é sempre a honestidade da narrativa o que me encanta. Quando eu vejo um pai ou uma mãe falando dos seus medos e não só do aprendizado e das alegrias na criação dos filhos, percebo que não estamos sozinhos nas nossas fraquezas.

Por fim, não apaguei as fotos nem os vídeos. Criei uma pasta e nomeei "para organizar depois" porque todas as nossas mídias estão organizadas por categorias no HD, mas ainda não sei em qual categoria se encaixa esse momento. Pronto. Salvei as memórias. Guardei os últimos meses como se estivesse arquivando uma coleção de lágrimas.

Depois abri a pasta para conferir e, olhando mais de perto, vi que no meio desses registros, que em meio a todas essas fotos no cenário pálido das quatro paredes de um quarto de hospital havia também uma porção de sorrisos... Eu vi amor.

Vi como nossa pequena é forte, e como ela cresceu, e como é bom ter uma família ao lado para participar também dessas memórias mais difíceis... Vi quanta coisa aprendemos juntos... vi como pessoas que estavam distantes tornaram-se mais próximas nesses últimos meses... vi uma coleção de sorrisos no meio de uma coleção de lágrimas. Aprendi que as lágrimas a gente também guarda. Elas são valiosas.

E é no meio delas que a gente encontra sorrisos cheios de significados para compartilhar.

Seleção de sorrisos dos últimos meses: