Quem sabe não criamos uma ponte...

21/09/2018

Fotografia: Ana Paula Couto

Eu sou diferente

Talvez um pouco mais diferente do que você jamais pudesse esperar

Talvez eu seja aquela diferença que tropeça na fronteira invisível e farpada do preconceito, bem naquele limite do aceitável, do tolerável...

Oscilando equilibrista entre o exótico e o anômalo, entre o belo e o inassimilável.

Aquela diferença importunadora que desafia a norma,

que transborda para fora dos moldes porque não se permite modelar.


Talvez eu VEJA diferente.

Talvez eu não olhe nos olhos.

Talvez eu me perca diante de um teto vazio e pareça distante

fitando o nada das paredes caiadas.

É de se esperar que você me guie pelo queixo

a olhar para onde os seus olhos querem me levar,

a enxergar o seu mundo e tudo que há de beleza nos contrastes palpáveis da sua realidade. Mas quem sabe você também não pudesse, de vez em quando,

deitar-se ao meu lado e inclinar o seu rosto no mesmo ângulo que o meu,

e vislumbrar o que há de beleza nas nuances intangíveis da minha (su)realidade.

Tem um mundo escondido no vazio.

Quem sabe você não possa aprender a ENXERGAR com o coração?


Talvez eu FALE diferente

Talvez eu não fale com palavras, do jeito que você gostaria, do jeito que você melhor entende, do jeito que você aprendeu que é o jeito certo de se comunicar.

Talvez você se entristeça de não ouvir o seu nome pronunciado por mim, de não me ouvir nomeando as cores, as frutas, as formas, de não me ouvir palavreando alegrias,

descrevendo sabores, ou os dissabores,

de não me ouvir descrever minhas dores.

Mas quem sabe você também não pudesse, de vez em quando,

se empenhar em ouvir meu corpo por inteiro,

e aprender a ler sem letras as entrelinhas do meu olhar,

o entredito de tudo que eu digo sem palavras, os gestos silenciosos desse discurso inaudível, que grita por ser atendido, que grita por ser decifrado.

Quem sabe você não possa aprender a OUVIR com o coração?


Talvez você se canse, de tempos em tempos, de insistir em me convidar para esse mundo seu. Quem sabe você não encontra descanso aceitando o convite de conhecer o mundo meu? Quem sabe não criamos uma ponte?

Quem sabe não fazemos por onde?

Quem sabe não encurtamos os espaços

entre você e eu?

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