Uma perfeita mãe

07/03/2018

Eu sou uma perfeição de mãe. Sou dessas mães que acordam sorridentes todos os dias já pensando em qual receita de bolo sem glúten fazer para o lanche da tarde. Não, eu nunca dei miojo, nem suco de caixinha, nem papinha Nestlé pros meus filhos. Isso é coisa de mãe relaxada.

Eu sou uma mãe perfeita. Eu nunca perco as estribeiras, eu dou exemplo de serenidade. Não, nunca me falta paciência, nem no trânsito... Eu nunca coloquei a cabeça pra fora do carro com o dedo em riste soltando meia dúzia de palavras indelicadas contra o motorista do ônibus que quase arrancou meu retrovisor, tudo isso com as crianças assistindo de camarote no banco de trás. Não, eu nunca precisei pedir desculpas aos meus filhos por um comportamento desses, tão inapropriado... Isso é coisa de mãe descontrolada!

Eu sou uma mãe perfeita. Eu nunca me esqueço de nada. Nunca esqueci de passar repelente, nem de cortar as unhas dos meus pequenos, eu nunca esqueci as datas das festas da escola. Não, eu nunca confundi a agenda. Eu nunca levei meu filho pra escola com fantasia de Hallowen no dia errado e só percebi a gafe quando me deparei com as crianças subindo as escadas de uniforme e caras limpas. Não, eu nem tive que sair que nem doida à procura de uma farmácia pra comprar um demaquilante e tirar às pressas a maquiagem de zumbi do meu filho, que eu havia pintado em casa com todo capricho pra compensar a fantasia meia boca, feita no improviso, uma mistura de pirata e vampiro, por não ter tido tempo nem grana pra comprar uma melhor. Não, eu nunca entregaria meu filho na escola com o olho borrado de lápis preto da maquiagem que não saiu completamente, parecendo o Ozzy Osbourne em plena manhã de uma segunda-feira. Não, eu nuca fiz isso, isso é coisa de mãe displicente.

Eu sou uma mãe perfeita. Eu nunca deixei o Mundo Bita rolando na TV pra distrair a pequena enquanto eu tentava dormir uns minutos a mais num sábado desses em que a gatinha resolve acordar às 5 da matina. Não, eu nunca deixei o mais velho jogar vídeo game uma hora além do combinado pra poder ter essa uma hora a mais de sossego e terminar meus trabalhos. Não, eu nunca suspiro aliviada quando eles finalmente capotam e dormem. Não, eu nem faço questão de ter esse momento pra mim, de tomar um banho quente e demorado sem ter que sair pelada toda vez que ouço um barulho na sala, achando que um dos dois despencou do sofá, ou que alguém está invadindo a casa. Não, isso é coisa de mãe neurótica.

Eu sou uma mãe perfeita. Eu nunca choro no fim do dia com o peso no peito dessa culpa tão recorrente de mãe imperfeita, a culpa por não ter brincado mais, por não ter dado o brinquedo, por não ter comprado o doce, por não ter tido a paciência do Jó o tempo todo, por não ter lido uma história antes de dormir, por não ter lembrado disso e daquilo, por não ter preparado um jantar colorido, por não ter sido o melhor exemplo de ser humano que os filhos deveriam ter.

Eu sou uma mãe (im) perfeita.

A todas as mães que, como eu, gostariam que estas mentiras fossem verdades. A todas que, como eu, gostariam de ser as heroínas de seus filhos o tempo inteiro, mas que precisam humildemente reconhecer diante deles que são imperfeitas, e dizer muitas vezes "não faça o que eu fiz, isso não é certo" ou "desculpa, a mamãe errou". A todas as mães perfeitamente falíveis, passíveis de erros e nem por isso menos dignas de respeito. A todas que acordam um dia após o outro determinadas a fazer melhor aquilo que não foi bem feito ontem... 

A todas as mães que dirigem sozinhas com seus filhos no banco de trás, que precisam olhar de minuto em minuto o espelho de segurança do bebê conforto, e ao mesmo tempo coordenar com olhos de siri aquela espiada entre um retrovisor e outro pra desviar dos motoristas malucos que pensam que por você ser mulher pode ser fechada, ultrapassada e cortada no trânsito porque, afinal, você deveria estar era pilotando um fogão, não é verdade? A todas as mães que fazem malabarismo todos os dias pra dar conta de trabalho (em casa e fora, muitas vezes), de comida, de compras, de remédios, de horários e compromissos (quase nunca seus, mas sim deles, dos filhos...), você que tem que dar conta dos uniformes manchados de sabe-se lá que geleca que não sai nem com todo Vanish do planeta, você que mais parece um polvo com braços sempre inquietos, que seguram, arrumam, penteiam, escovam, acalentam, tudo ao mesmo tempo...

A todas as mães que se esforçam pra encontrar em meio a tantas demandas um espaço para ambicionar pequenos sonhos, pequenos projetos pessoais... o artesanato, os estudos que interrompeu, a aula de dança, o pilates, tudo isso sempre em último lugar no ranking de prioridades porque, aliás, "quem mandou ter filhos? ninguém te obrigou", não é o que dizem?... A todas as mães que, como eu, quiseram sim, e querem e amam ter seus filhos e que se sentem realizadas com a maternidade e que vibram pelas conquistas deles como se fossem suas ( e não são?), e que morrem de orgulho das crias, e que fariam de tudo por elas, que não poupariam a própria vida pelos filhos mas que, ainda que sendo mães, ainda que sabendo que ser mãe é sua prioridade na vida, por escolha, sim, ainda assim entendem que, quando nasce uma mãe, não se enterra uma mulher.

A vocês, que além de serem mães são belas, são fortes, são versáteis, são malabaristas, são contorcionistas, são sexy, são inteligentes, são sensíveis, são falhas e têm a elegância de admitir que o são, a todas vocês que são mães, mas que continuam a ser seres humanos, continuam a ser mulheres, carregando consigo toda a beleza da sua imperfeição.

A todas eu desejo que se culpem menos e que se ajudem mais, que se comparem menos e que se admirem mais, mutuamente. Que sejam o ombro amigo umas das outras. Que unam forças. Que se apoiem e cresçam juntas.

A todas essa homenagem, essa confissão de dicotomia entre fraqueza e força... 

A todas desejo

                               Sororidade,  

                                                 na maternidade e na vida. 



Créditos da imagem: https://www.fasdapsicanalise.com.br/o-desafio-de-ser-mae-e-profissional/



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