Contro-versos

'A arte existe porque a vida não basta'  Ferreira Gullar

Se esse mundo não é para você eu não quero estar nesse mundo

Se os espaços não te derem passagem e se não houver caminhos por onde você possa transitar...

Então eu também me recuso a caminhar neste mundo

Se não houver escolas onde você possa ser como é, e aprender de um jeito só seu...

Então eu também abro mão de ensinar neste mundo.

Se não houver lugar para as diferenças, se não houver brechas para romper com padronizações...

Então eu também não me adequo, permaneço transgressão neste mundo

Se não houver uma forma de olhar que contemple sua beleza, se não houver visão para além daquilo que te falta...

Então eu também não sou vista e não me vejo completa neste mundo.

Se eu não puder garantir que você seja feliz

Então este mundo é o mais indigno dos mundos e eu não quero estar aqui

Se esse mundo não te pertencer

Eu tampouco pertenço a este mundo

Se eu não puder mudar o mundo

Resta-me este anseio de construir um novo

Resta-me o apego às utopias

Resta-me o risco de cair no ridículo da ingenuidade de quem sonha

Resta-me a simplicidade das esperanças, a teimosia da persistência em acreditar que o mundo possa ter um pouco mais de amor pra partilhar, um pouco mais de sonho pra sonhar, um pouco mais de carinho nas palavras e um pouco mais de afeto no olhar.

Você é o meu mundo

Estou no meu lugar.

Porque as contradições da maternidade também se traduzem em poesia... 

Contro-versos

Há uma alegria um tanto ressentida

Uma melancolia que esse teu sorriso não sabe ofuscar

Há uma coragem tão acovardada

Uma bravura trêmula que é tudo que resta neste teu lutar

Há uma força um tanto enternecida

Um impulso inerme restringindo os passos do teu caminhar

Há uma certeza um tanto hesitante

Uma fé vacilante que persiste a despeito desse teu pesar

Há uma paz tão enfurecida

Uma fúria contida, quieteza imprecisa neste teu ohar

Há um devaneio quase tão palpável

Quanto os cacos de sonhos que guardastes no peito pra revisitar

Há uma canção de versos silenciosos

Melodia esquecida que o coração recorda e insiste em cantarolar

Há uma solidão tão cercada de gente

Multidão de ausências, burburinho inaudível a te rodear

Há um abraço nessa tua repulsa

Um apelo ao afago que nem toda a frieza consegue negar

Há uma esperança tão desesperançada

Uma prece guardada, repetida em balbucios nesse teu travesseiro

Testemunha noturna do teu desespero,

Coletor de lágrimas do teu soluçar

Proseando                           Vidamar

         Sobre as marés da vida...

Vidamar

Vão e vem
Bailando 
Em movimento incessante
A vida
E o mar

Por vezes translúcido
Espelho d'água 
Repousas como um manto
Sobre a areia da praia
Por vezes serena
Se aquieta minha vida
Como a brisa da praia
Na manhã de domingo

Vão e vem
Cambaleando
Em movimento inebriante
O mar 
E a vida

Da noite pro dia
Impiedosa tormenta
Sobrevém arbitrária
Contra a tênue calmaria
Quanta sabedoria
Neste meu pedacinho de mar
Paisagem imprevisível
Sempre a mudar
Um desenho inacabado
A vida e o mar

Por vezes altivo
Se enaltece e sobe
Maré alta
Prepotente
Sobrepujando os rochedos

Ao amanhecer
Humildemente recua
Revelando os segredos
Em seu leito desnudo
Preciosas miudezas
Quanta sutileza
E generosidade há

Na vida 
E no mar